Hugo martins
Todo símbolo e todo signo carregam em suas
entranhas significações múltiplas. É a cultura em que são concebidos que
determina os sentidos. A experiência, a vivência, a visão de mundo e todo
cabedal que o homem traz em si como conhecimento prévio do mundo produzem os
sentidos. Estes vêm à tona dependendo da maior ou menor extensão daquele
conhecimento enciclopédico pertinente a todo homem.
Nossa cultura toma como símbolo
do magistério a coruja. Por que? Ora, a coruja, quando "olha"
o mundo, fá-lo girando a cabeça em trezentos e sessenta graus. Além disso, enxerga o mundo com os grandes olhos
bem abertos e parece não dormir. Assim, quer a cultura, por este símbolo, que o
professor esteja sempre atento, a enxergar com nitidez indormida o que vai pelo
mundo para não cair na esparrela de levar a seus discípulos uma concepção falsa
ou distorcida da realidade que os cerca.
Convencionou-se que a Deusa da Justiça é Têmis, representada por uma
mulher cujos olhos estão permanentemente vendados; na mão esquerda, soergue, à
altura da cabeça, uma balança, cujos pratos estão em perfeito equilíbrio; na
outra mão, porta uma espada com a ponta voltada para baixo. Lembro, por
jocosidade, que certa feita, uma filha minha, em seus seis anos de idade, ao
ver a estátua da Deusa, perguntou-me se se tratava de uma mulher brincando de
"cabra cega"...
A interpretação de minha filha tem sua validade, mas, para quem já
adquiriu alguma experiência de mundo, cada elemento acima referido, pode
desencavar significações outras, entre elas a que lembra ser aquela Deusa o
símbolo do Direito como ciência que visa ao atingimento da melhor justiça a ser
perseguida pelos operadores do Direito. Vamos às significações possíveis. A
venda nos olhos remete à idèia de imparcialidade, em outras palavras, a
aplicação do Direito deve ter em mira o dar a cada um o que é seu, sem levar em
conta senão o direito pelo direito.. A balança lembra equidade, senso de
justiça, tratamento das partes em pé de igualdade, alijando do litígio concessões
de favores e privilégios a quem quer que seja ou por qualquer outro motivo
estranho ao litígio . Por fim, a espada representa a possibilidade do uso da
força ou, como preferem dizer os juristas, a recorrência à coercibilidade.
Explicando: se os cônjuges se apartam, se separam, se divorciam, e da relação
resultaram filhos menores, por exemplo, os pais podem pensionar os filhos
independentemente da intervenção do Poder Judiciário por tratar -se de questão
de ordem moral: a manutenção da prole. Aquela espada só intervém na questão se
os obrigados não cumprirem o dever moral afeto a eles.
Ontem perguntaram-se o que siginifica a expressão "brado
retumbante". A pergunta surgiu talvez por causa de uma minissérie global
que andou pelo ar. A expressão está na primeira estrofe do Hino Nacional
brasileiro, de autoria de Joaquim Osório Duque Estrada. Tal estrofe , lida na
ordem direta, assim fica: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o BRADO
RETUMBANTE DE UM POVO HERÓICO... Esse tal brado traduz o chamado Independência
ou Morte esgoelado por D. Pedro I, às margens do regato Ipiranga, conforme
propala a história oficial. Formando locução com POVO HERÓICO, significa que o
grito de D. Pedro representou a vontade do povo (hilariante), que almejava a
ruptura política do Brasil com Portugal... Coisa da História e das antigas
aulas da disciplina moral e cívica ao tempo da Redentora de 1964. Não atino
para o significado da expressão na minissérie global, pois não sou muito afeito
a assistir a tais seriados... De todo o modo, aí está seu significado...
Como dói e comove "aquela vontade do povo". De quatro em
quatro anos, aqui na terra tupiniquim, ocorrem eleições em que matilhas e
matilhas de homens abnegados e sinceramente preocupados com o bem-estar do povo
brasileiro, ecoa seu BRADO RETUMBANTE. Não há o gritinho. Não. Com gritos nada
se resolve. Só D.Pedro... Os hoje voltados para o destino e melhoria de
condições do povo não gritam... Ciciam discursos melífluos, de cujo teor se
pode obter o néctar e a ambrosia dos deuses. Sorriem cavalarmente... Tomam, em
plena rua e longe de seus gabinetes, cafezinho em companhia do povo...Soerguem
criancinhas nos braços... E prometem algo que por si mesmo constitui sua
obrigação. Mas que seus brados, naqueles moldes, comove, comovem...
Assim são os símbolos e signos, linguagem pura a gosto de todos. Se a
linguagem é, como alguém disse, "a morada do Ser", seus sentidos mais
profundos estão em você, cidadão do mundo e servo da linguagem...
Voilà.
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