quarta-feira, 22 de junho de 2016

LEITURA
Hugo Martins
Toda obra literária, antes de ser enfrentada, deve merecer uma leitura periférica: orelhas, prefácio, título. Espécie de aperitivo motivador da leitura. Os títulos, muitas vezes, já entregam de bandeja ao leitor o assunto da obra. Por exemplo: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis. Que são memórias enquanto gênero literário? Gênero textual narrativo em que o autor registra sua própria história de mundo. Érico Veríssimo deixou obra memorialística, Solo de Clarineta; Ciro dos Anjos nos deixou Menina do Sobrado; Jorge Amado, Navegação de Cabotagem e, o melhor exemplo, Pedro Nava escreveu vários volumes memorialísticos, iniciando a série por Baú de Ossos. O adjetivo póstumo, derivado da locução latina POST MORTEM, significa após a morte. Quer dizer, Brás Cubas morreu e escreveu suas memórias, situação perfeitamente aceitável na lógica da verossimilhança da arte. Por isso, é que, “estando do outro lado do mistério”, isento de censuras ou admoestações, procura desmistificar determinados valores exaltados pelos homens de bem, acostumados às normas éticas de bom tom e outras convenções culturais. Além disso, desdenha do amor, da fidelidade, dos bons propósitos, da bondade gratuita dos homens de boa vontade. Só a leitura da obra pode propiciar a dimensão niilista, cética e desiludida de que é tomado Brás Cubas nas suas cínicas memórias. Bom ao leitor ler, depois da dedicatória, a advertência Ao Leitor. Nela estão contidas algumas observações do autor bastante elucidativas para uma fruição mais gozosa da obra do “bruxo do Cosme Velho.” Vale a pena ler e reler.

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