domingo, 19 de junho de 2016

POESIA E BELEZA
Hugo Martins
Li em algum lugar que a Academia Brasileira de Letras encarregou seus 40 imortais a indicar, cada um de per si, os mais belos versos da língua portuguesa. Tarefa difícil, pois a colheita deveria levar em conta a poesia brasileira de todos os tempos. A maioria dos acadêmicos chegou a um resultado nada surpreendente: foram ao poema Navio Negreiro, da obra Os Escravos, de Antônio de Castro Alves, e de lá retiraram oito versos do último canto do grandioso poema por meio dos quais o vate baiano profere majestosa e lamentosa saudação à bandeira. Coisa linda! Transcrevo-os e deles forneço breve e superficial explicação. Ei-los.
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Os quatro primeiros versos constituem um vocativo. Deles se pode depreender: dois sinônimos de bandeira, no caso, pendão e estandarte; a repetição, no segundo verso, da consoante bilabial B como a sugerir o ato de beijar; e o fato histórico de a bandeira (o estandarte, o pendão) encerrar duas coisas, por ordem, a luz do sol (luz é sempre muito bom) e as promessas divinas da esperança.
Nos quatro últimos versos, há um grito de dor, um lamento, uma decepção. Transponhamos os versos para a ordem direta, e a ideia aqui colocada se fará presente. Vamos lá. TU, (bandeira, estandarte, pendão), QUE FOSTE HASTEADO NA LANÇA DO HERÓIS APÓS A GUERRA DA LIBERDADE, ANTES TE HOUVESSEM ROTO (rasgado) NA BATALHA QUE SERVIRES DE MORTALHA A UM POVO.
Quem conhece os fatos históricos referentes ao tráfico negreiro na História do Brasil pode sentir melhor a grandeza épica desses versos e, quem sabe, a partir destes, fazer a leitura completa do poema. Coisa mais bela não há.

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