terça-feira, 28 de junho de 2016

BOA ESTICADA
                                                     Hugo Martins

Cheguei lá. Compulsei mil e seiscentas páginas. Quanto mais lia, mais descansado me sentia. Para mim, os bons textos são como os bons vinhos, não me tiram o sono...  Ambos me são capitosos. Pela etimologia desta última palavra, significa dizer que me chegam à cabeça, entontecem-me. Pois bem, hoje pela manhã, entornei a última dose de um livro saboroso, virei-lhe a última página. Nessas horas, o espírito parece adejar, ergo-me da cadeira e fico zanzando pra lá e pra cá, regurgitando uma alegria interior indescritível como se  “lombrado” pelos efeitos da “viagem”.
O assunto interessa a todos que desejam interpretar o Brasil pela História do Brasil, principalmente a daquela fase que se convencionou chamar de República Nova (não confundir com a Nova República da tragicômica era iniciada por Sarney). A forma de “contar”, de amarrar os acontecimentos, em sua cronologia, em sua análise desapaixonada, são ingredientes que prendem a atenção dos leitores, do mais atento ao mais preguiçoso...
Com efeito, a obra do jornalista cearense Lira Neto sobre a figura controversa de Getúlio Vargas percorre a vida desse brasileiro de São Borja, focando-lhe a imagem risonha e o espírito atento à rede de intrigas em torno do fazer política nesse país de tantos lobos e poucos cordeiros. Getúlio Dorneles Vargas alçou-se ao poder por um golpe, promulgou uma constituição, outorgou outra e acabou por rasgar as duas. Permaneceu no poder durante quinze anos quando foi, por fim, apeado, também por um golpe. Ainda assim, elegeu-se senador da República, mas, mediante sucessivas licenças, deixou-se ficar num exílio involuntário em sua terra natal. Aqui, em sua conhecida fleuma, tecia planos de como voltar, pois efetivamente voltou. Agora pela força do voto. Nessa terceira vez, viu-se enrolado em palpos de aranha, que tomaram grande vulto, levando o ex-ditador ao ato extremo: suicidar-se em 25 de agosto de 1954.
É mitificado por uns e aguilhoado por outros. Aqueles pela industrialização do país, bem como pelo avanço das leis trabalhistas e a preocupação com a melhoria das condições do trabalhador; estes, porque viam em Getúlio um manipulador, com cujo discurso narcotizou a consciência do brasileiro, além de a este impor, no primeiro momento, rígida e imoral ditadura e, no segundo momento, entregar o país ao caos político-econômico e se deixar enredar numa rede de corrupção que não permitia o caminho de volta.
A obra de Lira Neto não toma partido e não alimenta proselitismo. Parece propor a reflexão sobre aquelas duas visões.
O autor, em seus agradecimentos, lista as pessoas que a ele levaram toda espécie de subsídio para tornar a obra cada vez mais fiel aos meandros do fato histórico, bem como assume toda responsabilidade por eventuais distorções que possam exsurgir de sua excelente narrativa.
 Li do jornalista cearense esta obra aqui em foco, a biografia de Maysa e uma espécie de ensaio de cunho sociológico sobre a figura do Padre Cícero Romão Batista. De minha parte, não titubeio em indicar cada uma. Todas constituem leitura agradável, informativa e edificante. Conhecer a História do país é uma “nice”. São muitos os fatos e incontáveis os personagens... Cada qual mais intrigante e excitante...

























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