BOA
ESTICADA
Hugo Martins
Cheguei lá. Compulsei mil
e seiscentas páginas. Quanto mais lia, mais descansado me sentia. Para mim, os
bons textos são como os bons vinhos, não me tiram o sono... Ambos me são capitosos. Pela etimologia desta
última palavra, significa dizer que me chegam à cabeça, entontecem-me. Pois
bem, hoje pela manhã, entornei a última dose de um livro saboroso, virei-lhe a
última página. Nessas horas, o espírito parece adejar, ergo-me da cadeira e
fico zanzando pra lá e pra cá, regurgitando uma alegria interior indescritível
como se “lombrado” pelos efeitos da
“viagem”.
O assunto interessa a
todos que desejam interpretar o Brasil pela História do Brasil, principalmente
a daquela fase que se convencionou chamar de República Nova (não confundir com
a Nova República da tragicômica era iniciada por Sarney). A forma de “contar”,
de amarrar os acontecimentos, em sua cronologia, em sua análise desapaixonada,
são ingredientes que prendem a atenção dos leitores, do mais atento ao mais
preguiçoso...
Com efeito, a obra do
jornalista cearense Lira Neto sobre a figura controversa de Getúlio Vargas
percorre a vida desse brasileiro de São Borja, focando-lhe a imagem risonha e o
espírito atento à rede de intrigas em torno do fazer política nesse país de
tantos lobos e poucos cordeiros. Getúlio Dorneles Vargas alçou-se ao poder por
um golpe, promulgou uma constituição, outorgou outra e acabou por rasgar as
duas. Permaneceu no poder durante quinze anos quando foi, por fim, apeado,
também por um golpe. Ainda assim, elegeu-se senador da República, mas, mediante
sucessivas licenças, deixou-se ficar num exílio involuntário em sua terra
natal. Aqui, em sua conhecida fleuma, tecia planos de como voltar, pois
efetivamente voltou. Agora pela força do voto. Nessa terceira vez, viu-se
enrolado em palpos de aranha, que tomaram grande vulto, levando o ex-ditador ao
ato extremo: suicidar-se em 25 de agosto de 1954.
É mitificado por uns e
aguilhoado por outros. Aqueles pela industrialização do país, bem como pelo
avanço das leis trabalhistas e a preocupação com a melhoria das condições do
trabalhador; estes, porque viam em Getúlio um manipulador, com cujo discurso
narcotizou a consciência do brasileiro, além de a este impor, no primeiro
momento, rígida e imoral ditadura e, no segundo momento, entregar o país ao
caos político-econômico e se deixar enredar numa rede de corrupção que não
permitia o caminho de volta.
A obra de Lira Neto não
toma partido e não alimenta proselitismo. Parece propor a reflexão sobre
aquelas duas visões.
O autor, em seus
agradecimentos, lista as pessoas que a ele levaram toda espécie de subsídio
para tornar a obra cada vez mais fiel aos meandros do fato histórico, bem como
assume toda responsabilidade por eventuais distorções que possam exsurgir de
sua excelente narrativa.
Li do jornalista cearense esta obra aqui em
foco, a biografia de Maysa e uma espécie de ensaio de cunho sociológico sobre a
figura do Padre Cícero Romão Batista. De minha parte, não titubeio em indicar
cada uma. Todas constituem leitura agradável, informativa e edificante.
Conhecer a História do país é uma “nice”. São muitos os fatos e incontáveis os
personagens... Cada qual mais intrigante e excitante...
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