quarta-feira, 29 de junho de 2016

CRIANÇA ESPERANÇA.
                                               Hugo Martins

Em todas as películas fílmicas com que brindou a humanidade, Charles Chaplin sempre esboça um sorriso sensaborido, mais um ricto que um sorriso, como que exprimindo sua decepção e sua rascante ironia com a “bondade” humana. De regra, ao fim do filme, Carlitos, incompreendido feito o Albatroz de Baudelaire, vê-se entregue a uma lancinante solidão e a irremediável abandono.
Os que tentaram imitá-lo não conseguiram repassar ao espectador aquele misto de ironia e velada melancolia que só o criador de Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta conseguia imprimir no gesto tímido de levar as mãos à boca, soerguer e retorcer os ombros e rasgar, a medo, os lábios. Numa interpretação, em que se pode ler toda a dor, todo o desencanto, toda a tristeza vã, que só pintores com suas telas, que só poetas e romancistas com sua pena, que só filósofos com suas fundas reflexões ousam exprimir.
Aqui no Brasil, o teleator Renato Aragão faz muito esforço para repetir o que Charles Chaplin fazia. Só que em vão. Quando tenta mexer na sensibilidade do público com aquele risinho mentiroso, sempre abre espaço a um ranço interpretativo em que se desencava falsidade e reles sinceridade no que tenta repassar. Nada de persuasivo chega ao telespectador quando ele abre a bocarra, com o risinho pseudochapliniano, tentando convencer o populacho a aderir ao tal “criança esperança”, forma cretina de embair os tolos.
 Dizem que os grandes atores, quando dão luz a seus personagens, estes só convencerão os apreciadores de cinema se estiverem imbuídos de aura interpretativa de que sobressai a convicção de que estão encarnados vivamente neste ou naquele personagem. Ora, Renato Aragão não se inscreve no rol dos grandes intérpretes, seja no cinema, seja na televisão. Está mais próximo do palhaço de circo que do grande ator (com todo o respeito aos palhaços de circo). Os tropeções, esgares e indumentária destes sempre foram motivo do riso das crianças e nunca serviram a manobras malandras para ir ao bolso da população com propostas pilantroides.
Por trás do riso desengraçado de Renato Aragão, esconde-se um sofisma, um raciocínio enganoso global: o de que somos otários desinformados. A esperança a que ele se refere não alcança grande parte de nossas crianças, jogadas ao deus-dará, abandonadas à própria sorte, vítimas do egoísmo reinante de uma sociedade doente, perversa e mal-educada.
A esperança em foco, em outras palavras, o direito a ser gente, o direito a ter direitos encontra-se nos cofres públicos, onde dormitam os tributos que todos pagamos e são desviados por invisíveis mãos despudoradas. Nada mais evidente.
Por trás dessa história de que devemos retirar um naco cristão de nossa bolsa para alimentar programas cretinos e melosos, encondem-se intenções malignas e mentirosas. Nossa sensibilidade não pode ser enganada pelo espetáculo engalanado de uma tropa televisiva bem domesticada sob a batuta de um trágicômico maestro de ópera-bufa.
Se, no riso melancólico de Chaplin, há forte esperança de um mundo em que a sinceridade deva ser o grande sinete; no de Renato Aragão sobressaem a desfaçatez, a ignomínia e a insinceridade das sociedades em que a preocupação com o outro não passa de um grande teatro.

Não, pois, ao criança esperança global. Não sejamos mais um fantoche teleguiado pelo cordel perverso de grandes vivaldinos.

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