domingo, 19 de junho de 2016

As metáforas, as metáforas... Delas há que lembram navalhadas cartesianas... Uma das mais contundentes se encontra no filme O Grande Ditador, em que Charles Chaplin satiriza Adolfo Hitler e Benito Mussolini e, por extensão, a figura tétrica de qualquer ditador atemporal e inespacial. Em 1974, aqui na terrinha solidária, no momento em que ainda supuravam os malefícios da Redentora, Chico Buarque de Holanda lançou um Long Playing, tomando de empréstimo o título de uma música de Paulinho da Viola: Sinal Fechado. Esta locução, estava posta ao lado esquerdo do nome de Chico Buarque. E daí? Onde a metáfora? Se se considerar que Chico costumava lançar discos com letra e música de sua autoria, salvante, aqui e acolá, uma parceria com Vinicius, Tom ou Francis Hime, é de causar espanto o lançamento de um disco constante de doze música todas de autoria de outros compositores. E daí? Onde a metáfora? Ora, num país em que a censura decidia o que podia ou não podia, Chico Buarque não tinha vez. Se vinte músicas suas chegadas ao rígido tribunal de censores intelectualmente estreitos e míopes recebiam a tarja de proibidas, lançar um disco com aquele título era expor a quanto chegava o amordaçamento da liberdade de expressão, sobretudo a manifestada pela excelência da poesia das palavras e da música. O compositor sempre fazia gozação com os censores. Se estes rejeitavam, mediante justificativas cretinas, que a composição poderia estar ofendendo, por exemplo, a moral, os bons costumes ou a segurança nacional, Chico, travestido com o nome Julinho da Adelaide, reenviava as músicas, que, ironicamente, passavam sem nenhum arranhão pelo crivo daquela malta de imbeciloides. A metaforização é esse jogo do parece mas não é, capaz de comover e fazer rir. Só pra fechar: num lance de absoluto descrédito na espécie humana, Machado de Assis metaforizou valores, criando esta pérola: "Se encontrares em tostão, devolve-o ao dono; se encontrares um milhão, deposita-o na tua conta." Nada a ver com o texto, mas é uma metáfora das mais belas. Se eu tivesse escrito "nada haver" no lugar da locução correta "nada a ver" , apereceria alguém solidário ao meu deslize ? Que tinturas de bandeira "a" ou "b" aquele solidário elegeria para expressar seu ato tão humano? Eis mais uma metáfora...

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