RELEITURAS
E LATÊNCIAS
Hugo
Martins
Não daria certo nunca a
Branca de Neve acordar a Bela Adormecida com um beijo como fizera um príncipe.
Primeiro, porque a Branca gostava de homem e demonstrava evidente pendor para a
ninfomania, afinal eram sete para lhes fazer os “gostos”; segundo, porque a
Bela queria perder a virgindade. A “roca” em que feriu o dedinho simboliza um
homem extremamente viril e sequioso por satisfazer a cupidez e as necessidades da
jovem adolescente. A Bela saiu com o dedo sangrando.... Ora, quando o príncipe
beija a menininha, esta desperta e, com ela, todo o reino, que, simbolicamente,
encontrava-se mergulhado em fundo preconceito. O tal príncipe foi magnânimo,
aceitou, numa sociedade como aquela, casar-se com a moça que havia perdido a
virgindade e, por via de consequência, era tratada como propriedade de um só e
único homem depois que saía das raias do pátrio poder (o poder do pai). O tabu
da virgindade, nos nossos dias, é coisa do passado, sem nenhuma repercussão,
como naqueles tempos. Nessa época, o escritor tinha que recorrer a artifícios
de toda sorte, hoje desvendados, sem grandes dificuldades, pelo arsenal da
semiótica (ciência dos significados, das possíveis leituras de qualquer signo).
Por isso, se figurasse Branca de Neve, beijando a Bela Adormecida, acordando-a
juntamente com o reino, certamente o mito da perda da virgindade e o
preconceito que o acompanhava, ali presente no conto, teria que receber outro
tratamento, pois os referenciais de cultura seriam outros. A Bela, com os
referenciais referidos, perderia a virgindade com a maestria de Branca em
manipular um “dildo” erótico comprado em qualquer esquina desse país varonil...
Reiteramos: Branca de |Neve gostava de homem. Bem que a Bruxa fez uma forcinha;
bem que a rainha do espelho fez também mais umas forcinhas. Nada adiantou.
Branca de Neve gostava de homens: zangados, habilidosos, chorões, falsamente
ingênuos e que usavam picaretas muito eficazes na busca do ouro em minas e
outras cavernas.... Não gostava, nem mesmo, de caçadores com a virilidade
duvidosa...
A leitura da Branca
acordando a Bela com um beijo é perfeitamente válida quanto a agora feita. Tudo
depende dos olhos, sobretudo o terceiro, que tem intimidade com as coisas da
arte e “o homem com as suas circunstâncias” de toda coloração...
O mais é o mais. Quem
quiser acrescente.
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