domingo, 19 de junho de 2016
Discutia-se a realidade dura que o artista enfrenta quando se debate na insana luta entre as formas de expressão e sua impotência em alcançar, plenamente, o conteúdo. É o eterno duelo entre o dizer e o como dizer. É o exprimir o indizível, o inefável. É o traduzir o que vai na alma sem recorrer ao choro, ao riso ou ao silêncio. Em outras palavras, a melhor forma de exprimir algo é o dizer de modo mais original possível. É procurar todas as possibilidades, pois estas não se esgotam, manifestam-se na busca, na procura, na inventividade, na capacidade do artista em rearrumar o mundo com ideias rearrumadas. O título Pastores da Noite, romance de Jorge Amado, poderia intitular-se Boêmios. Qual título mais sugestivo? Quando se abrem as primeiras páginas da obra, lá temos: "Pastoreávamos a noite com nossos cajados de aguardente..." Mais bonitim, né mermo? Isso não sai fácil da pena do escritor... Aquela Pasárgada (não diga passárgada, aquele "s" tem valor fonético de "z") não é uma mera região geográfica da antiga Pérsia. No contexto do poema, traduz-se numa metáfora que nos conduz à infância ou a uma instância espiritual em que " tudo o que não foi poderia ter sido". Era ali que Bandeira se purgava de todas as frustraçoes que experimentou quando se viu, aos dezoito anos, vitimado por uma tuberculose que limitou todos os seus voos. Se a andorinha de Bandeira passou "o dia à toa, à toa", Bandeira teve canção mais triste, pois, conforme ele diz, "passou a vida à toa, à toa" . Literatura das melhores, de expressão rica e humana. Quem se der ao trabalho de verificar a riqueza expressiva dos bons textos, poderá, além de fruir profundo gozo intelectual, constatar que o lidar com as palavras, se é " luta vã, como quer Drummond, não é tão vã assim. Talvez, nesse passo, o poeta de Itabira esteja exatamente confirmando que o embate entre a forma e o conteúdo seja algo da natureza do criar. Deste sofrimento é que surge toda beleza, toda magia todo o encantamento da obra de arte.
Hugo Martins
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário