PARAFRASEANDO
Hugo Martins
Não sei quem primeiro criou a técnica de criar falsas expectativas no leitor. Vi a coisa numa crônica de Carlos Drummond de Andrade. Conta o poeta mineiro que um sujeito estava aniversariando. Quando acordou, não sentiu qualquer manifestação carinhosa da família. Apenas os cumprimentos usuais de todos os dias. Saiu de casa com o humor nas nuvens. Chegando ao escritório, foi recebido pela secretária, carinhosamente, com beijinhos e rosas num jarro. A moça o convidou para almoçar. Depois, no escritório, não se mediam nem se contavam as cordialidades. Fim de tarde, a secretária o levou a seu (dela) apartamento. Entraram. Ela serviu a ele uma dose caprichada de bom uísque e pediu que a esperasse enquanto ela se trocava. A noite prometia. Sorvia a bebida e dava asas à imaginação. A jovem se aprontara. Veio toda cheirosa, toda carinhos, toda sorrisos. Pegou-lhe a mão, conduziu-o a um aposento que parecia ser um quarto. O homem, tomado de uma grande felicidade e puto com a indiferença da família, jogou para o alto alguns valores, não titubeou, seguiu a jovem, que abriu a porta puxou-o para dentro, acendeu as luzes... No centro do aposento a família batia palmas e cantava: “Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades...”
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