sábado, 18 de junho de 2016

 TIPOS
                                        Hugo Martins
            Há três tipos de bêbados: o “bebo égua”, o bebo “fie duma égua” e o “bebo pai-d´égua.
            O primeiro, após sorver as duas primeiras cervejas, começa a fazer esgares, cruza as pernas e pende a cabeça para o ombro. Na terceira garrafa, ensaia um sorriso e, sentindo-se ameaçado com a presença de outras pessoas, profere palavrões, faz desafios a imaginários “inimigos”, boceja e pede a quarta cerveja. A cabeça começa a oscilar como a de um boneco “Zé teimoso”. Com o braço vacilante, enche o copo e ingere mais um gole. Apoia braço e antebraço em forma de ele sobre a mesa e nele encosta a cabeça. Dentro de pouco tempo, está ronronando como um porco, soltando impropérios ao vento, ou “babando na gravata” como a “cabra vadia” de Nelson Rodrigues. Ali mesmo fica até que alguém o acorda. Levanta-se bamboleante, dá alguns passos e se escafede rumo de casa, onde, certamente, continuará “botando boneco.”
            O “bebo fie duma égua” é baboso. Só sabe dirigir-se às pessoas, fazendo chover  perdigotos, cutucando-as ou encostando a cabeça no peito daquelas. Todo mundo é seu amigo. Cumprimenta a tudo e a todos com repetidos apertos de mão, numa insistência gosmenta. Conta vantagens, relata suas aventuras com mulheres e costuma dizer quanto é feliz com sua esposa. Os filhos são campeões em tudo, e a família é de boa origem, conhecida como gente de muitas posses ou ocupante de cargos importantes. Muitas vezes, abre o baú de recordações e de lá retira um amontoado de fatos, de cujas peripécias sai sempre vencedor. Quando as comportas do sentimentalismo, acentuado pelo teor etílico, se abrem, derrama-se numa tempestade de confissões, que não faria se estivesse sóbrio; a voz se embarga, e um princípio de choro se desenha no rosto macerado, ao tempo em que lágrimas fecham a sinfonia confessional. Premido pela indiferença dos circunstantes, afasta-se e sai, trôpego, monologando, como à procura de interlocutor que lhe suporte as chatices. 
            O “bebo pai-d´égua” destoa dos primeiros. Quanto mais ingere a “água que passarim não bebe”, mais sua conversa soa interessante. Conta piadas, diz gracejos irônicos e faz comentários espirituosos sobre a vida e o homem, sem perder a chance de olhar e elogiar as saias que passam. Nesse passo, não se revela inconveniente. A birita desperta sua veia poética, por isso é delicado e sensível. Nada quer demonstrar a ninguém, apenas curte a vida, goza o momento que passa e assiste aos dramas que se ensaiam nas rodas boêmias. Folgazão, o “bebo pai-d´égua” está sempre a costurar apologias, a compor nênias e a celebrar a existência no que ela tem de trágico, cômico e efêmero.
            Se o primeiro chateia a si próprio e o segundo enche a paciência dos outros, o último parece desejar apenas que as chatices da vida se esboroem com o ato gratuito de “tomar uma”, de “jogar conversa fora” e deixar o tempo passar sem se perturbar com o que vai pelo mundo...


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