TEMPO
Hugo
Martins
A matéria tempo é
complicada. Só na pena de Bergson, temos uma ideia de como a coisa se escoa,
escapa, foge de nossa percepção, nos deixa abespinhado a olhar para o tempo
como cachorro que cai de caminhão de mudança na metáfora feliz do povo quando
deseja exprimir as interrogações surdas que nos assaltam diante de um momento
para o qual não encontramos explicação racional. Confesso que hoje estou assim
me sentindo, perguntando ao tempo, ao que nos fugiu, ao que persiste permanecer
quando já é passado. É aquela dor que se sente sem saber onde e por que. É o pranto
escoando, inexplicável, pelos regos do rosto. É a saudade inexprimível,
explodindo nos escaninhos da alma. É a dor surda, gritante, esgoelante, e
inexprimível, sufocando a alma nos seus mais fundos escaninhos, sem entender os
porquês de tal dor, da lancinante dor
que nos sacrifica a reflexão, que bate, machuca e não nos dá chance alguma de
escapar ao tormento torturante de lembranças atrozes que nos dão a certeza de
que estamos vivos. E tal condição é dolorosa, pois temos que vivenciar as
experiência das ausências, das marcas do passado, dos momentos
irreconstituíveis, que se esboroam nas paredes da memória. Dor é dor; saudade é
saudade; ausência é dor e saudade, matérias jamais preenchidas pelas mágicas
das fugas do real. Em vinte e cinco anos parece ser fácil escamotear dores não
visíveis. Não é não. Tudo é doloroso, tudo é saudade, tudo é lembrança.
Esquecer minha heroína é muito difícil. Ela está sempre presente em minha vida,
Sempre amei-a e hei de amar sempre. Nunca me saiu das lembranças. Lembro timtim
por timtim todas as experiências que tive com ela. Todas, sem exceção. Os
conflitos que ocorriam entre nós. Surdos, mas reais, palpáveis por mim e por
ela. Quem estava fora nada percebia, pensava tratar-se de choques familiares do
dia a dia. Ela e eu sabíamos que uma viagem que ela fazia sem me levar poderia
resultar em dor para mim. Depois ela me explicava o porquê de tudo, e eu na
minha ingenuidade de menino amoroso cria em tudo e deixava tudo pra lá, pois
sabia que a “velha” sempre tinha razão. E ela tinha. Um dia, ela nos deixou.
Não sei a dor de cada um dos filhos. A minha foi lancinante, calada,
silenciosa, muda. Calou no fundo. E eu me perguntava: e agora? Não sei de nada.
Ela está presente em minha vida. Nos meus pensamentos, na minha ideia de
felicidade, nas minhas dores, que ela bem sabia quais eram. Aliás, ela sempre
me compreendeu, sempre entendeu meus rompantes e meus erros. Ela deveria ter
sido, num sonho freudiano, a minha mulher, aquela que compreenderia todos os
dramas que experimento e que podem constituir meus suplícios. Mas não, nada
disso está certo. Ela era minha mãe, minha musa, minha heroína, minha figura
inefável, a quem eu amei silenciosamente e a quem eu observava e nela via o
modelo de ser humano com quem sempre sonhei: compenetrado, obsequioso, sério,
silenciosamente amoroso e, sobretudo, preocupado com os filhos, aquela récua de
doze filhos, a quem ela ofertou o melhor que tinha e por quem fazia qualquer
sacrifício, desde que disso resultasse o bem-estar, a sensação de ser feliz de cada uma dos seus
pupilos.
Viva fosse, estaria, hoje, dia 6 de maio, com cento e três anos... Deixou-nos faz vinte e cinco anos. De minha parte, minha velha continua
viva em minha memória. Meu amor por ela não defino. Deixo isso à minha alma, ao
tempo em que com ela convivi, ao tempo que a mim permite presentificar sua
presença na minha alma, nas minhas lembranças, nos meus sonhos. Minha velha
estará, a toda hora, caminhando comigo, acompanhando meus passos, dando—me a
certeza de que não estou sozinho, E que presença... Com ela, ali nos meus
calcanhares, não me sinto sozinho. Por isso, reitero: a velha era única. Não
morreu para mim, ou, como dizem os místicos, foi para outra dimensão. Eles que
me desculpem: ela está aqui comigo, agora, hoje e sempre. As mães não morrem...
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