CONTRASTES
Hugo
Martins
Nada de novo em dizer que vivemos num país de contrastes.
Roger Bastide já lembrou tal evidência. Tragamos à baila, porém, outras
contradições tão evidentes, sem a necessidade de elucubrações sociológicas,
somente com o fito de constatar essa marca cultural em nossa terra tupiniquim.
Grande
é o zelo de professores brasileiros que se dedicam ao ensino de línguas
estrangeiras quando porfiam por levar o aluno a pronunciar essa ou aquela
palavra de conformidade com a fonética pertinente aos falantes nativos. Em
inglês, por exemplo, põem em relevo a diferença existente entre a pronúncia de
ingleses e norte-americanos. No entanto, pronunciam “pespectiva” no lugar de
perspectiva; dizem “prostado” ao invés de prostrado ou proferem “supertição” e
não superstição. Políticos há, bem como outros
animais da mesma fauna, que, em pronunciamentos estereotipados, nos desvirginam
os tímpanos quando sapecam, aos nossos ouvidos “parcipação” no lugar de
participação. Isso tudo não se constitui em fatos de somenos, pois a pronúncia
viciosa favorece os deslizes na grafia das palavras. Certa vez, por força da pronúncia
errônea da palavra, superstição (quando pronunciada sem o “s” do meio), um
aluno perguntou ao professor se tal palavra significava um negro alto e
corpulento (?)...
Os contrastes são múltiplos e visíveis. Por exemplo,
promulgou-se uma tal Lei Seca (nada com Alphonse Capone, o gângster de Chicago)
não se sabe se para coibir motoristas irresponsáveis, ou, ao contrário, para
mais e mais empanturrar, sem fartar, as burras do poder público com a aplicação
de multas registradas em radares e sensores. Por outro lado, um dos
patrocinadores do selecionado brasileiro de futebol na Copa do Mundo da África
do Sul foi uma marca famosa de cerveja, cujo personagem-mor é um dos jogadores
brasileiros e não uma mulher de seios fartos, pernas roliças e ar sensual. O
contraste, nesse caso, se anula, pois ambas, cerveja e Copa, provocam o mesmo
entorpecimento. Com uma diferença: a primeira, na cuca e no corpo; a última, na
consciência. São duas lombras diferentes. A segunda, porém, é mais eficiente em
provocar esses estados de torpor, pois além de inebriar, provoca uma
narcotizante imbecilidade coletiva que chega às raias de todos os limites da
oligofrenia.
Vive-se num país em que a lei atribui ao Estado a
responsabilidade pela educação, pela saúde. Em contraste, o cidadão paga a
escola; e, se quiser um serviço em prol de sua própria saúde, paga um plano, que,
por sua vez, só funciona a contento quando, em dados procedimentos médicos,
auditores inescrupulosos e desprovidos de bom senso obrigam os cidadãos a
recorrer ao poder judiciário. Aqueles senhores agem como sátrapas ou como
“olhos e ouvidos do rei”, cujas ações ignominiosas não visam ao paciente, mas a
impedir que esse ou aquele “plano” tenha gastos, na opinião deles, excessivos,
na recuperação do paciente. A existência de um contrato parece não ter
importância para quem tem a obrigação de trabalhar com o fator saúde melhor ou
pelo menos igual àquilo que o Estado se propõe.
Outro contraste, que põe às claras a desfaçatez deste
país de raros mocinhos e muitos vilões, é a evocação em que maltas de homens
públicos e a corja de asseclas evocam, em seus delírios democráticos, o
princípio da dignidade humana ou coisa que o valha. É muito bonitinho. É mesmo
uma gracinha quando os vemos em suas mise
en scène extremadas de farisaísmo cretinóide lembrar, sobremaneira em
tempos que precedem processos eleitorais, o imperativo de resgatar a dignidade
das pessoas, sobretudo de humilhados e ofendidos, vítimas atrozes das
patifarias daqueles mesmos senhores verbosos e mendazes... Ora, basta um olhar
perfunctório sobre realidade brasileira para enxergar o descompasso entre os
discursos daqueles senhores, tão vazios quão politiqueiros. Abram-se as
janelas: por elas, ver-se-ão, por toda parte, batalhões de famintos, levas de
desempregados, exércitos de crianças abandonadas e uma infinidade de outros
problemas sociais, que aqueles senhores só enxergam do altiplano de seus
gabinetes climatizados quando, em roupas domingueiras, abrem seus sorrisos e
acenam a manzorra mal ouvem o clarim da época de eleições... Nesse momento,
transformam-se em atores, pois possuem a certeza de que existe um rebanho não
dignificado em sua condição humana que certamente venderá, por dinheiro, por
ignorância ou por falta de caráter, seu voto àqueles senhores tão bem
intencionados. É comovente...
Mais trágico, porém, é martelar-se o chavão de que ordem
judicial não se discute, cumpre-se... Pois sim... Os professores das universidades
estaduais do Ceará, tal qual Godot, personagem do dramaturgo irlandês Samuel
Beckett, esperam, há mais de uma vintena de anos, a efetivação de um direito já
reconhecido pela Corte Maior do país, e o estado do Ceará, devedor contumaz,
continua - livre, leve o solto - a impedir que a sentença se cumpra. Haverá
maior contraste que a ingerência nefasta de um Poder em decisões que cabem a
outro Poder já que, pelo menos hipoteticamente, são eles “independentes e
harmônicos entre si”? O pior é que paira no espírito dos professores a dúvida
atroz: haverá juízes no país ou a subserviência insultuosa e a frívola
pusilanimidade ainda imperam nesta terra de contrastes?
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