quarta-feira, 22 de junho de 2016

HOMEM
Hugo Martins
Num dado episódio do romance Quincas Borba, Machado de Assis atinge o ápice do seu descrédito, do seu ceticismo e de sua desilusão em relação ao bicho homem. Certa feita, Rubião, o amigo de Quincas Borba, (e aqui se pense no homem e no cachorro) salva das rodas de uma carruagem em desembalada carreira um garotinho.... Este, mais tarde, na evolução da narrativa, vai ser visto em companhia de outros meninosa apupar e a jogar pedras no, agora louco, Rubião. Ironia do destino; ironia da vida; ironia do romancista... Esse episódio me veio à mente, quando, virando as últimas páginas da biografia de Vincent Van Gogh, de Irving Stone, vejo o pintor holandês em situação quase análoga. Van Gogh era homem de alma mansa, misantropo, totalmente envolvido no captar a luminosidade e essência do mundo em sua criação atormentada. Ninguém desconhece que o artista cortou a própria orelha. Não interessam os motivos. Havia muito sofrimento e muitos mistérios existenciais que as almas pequenas não atinam. No fim da vida, morava numa cidadezinha da França, que escolheu para viver, por causa da incidência do Sol, que era intensa. Por ser estranho, muito estranho, Van Gogh era tido pela população como um louco. Chamavam-no “Fou Rou” (em francês: Louco ruivo). Um dia, está em seu quarto trabalhando, quando da casa se acercam dezenas de pessoas, na maioria meninos, a gritar e a fazer versos. Gritavam, rimando: FOU ROU ERA UM MALUCO/QUE CORTOU UMA ORELHA/E AGORA É UM MALUCO SURDO/ DA CABELEIRA VERMELHA.
Ou apenas gritavam, carinhosamente: FOU ROU, DÊ-NOS A SUA ORELHA, DÊ-NOS SUA ORELHA/DÊ-NOS SUA ORELHA...
Isso dói na alma. Isso gera melancolia. Quanta perversidade nesse bicho chamado homem! Bem razão tinha Thomas Hobbes: retire dos homens os mecanismos de controle social, e, de pronto, toda a torpeza virá à tona. Fechei o livro tomado de uma tristeza profunda, de quase choro, extremamente envergonhado.... Não há carruagem aqui, Van Gogh não salva ninguém; sua obra, eterna e grande, está por aí...

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