CÍNICA
REFLEXÃO
Hugo
Martins
A paz dos campos santos foi quebrada
hoje, 2 de novembro. Em túmulos suntuosos, em covas rasas ou em campos gramados
e floridos, os mortos, que já serviram de pasto aos vermes, parecem repousar,
indiferentes a tristezas, saudades e flores com que a eles mimoseiam. No ar,
boa oportunidade para se praticar a filosofia de cemitérios. Não há um sistema
filosófico para isso e, se existe, a todos os mortais ele se revela fácil de
compreender, pois não exige refinadas elucubrações, tampouco leitura de livros
para apreender sua essência metafísica. A própria existência, com suas
sempiternas dores e suas fluidas ilusões é a matéria-prima da reflexão.
Enquanto ali debaixo da terra-mãe, dormem no sono eterno da
indiferença do tempo aqueles que já não são; do lado de cima, desfilam os
vivos, que pensam que são, mas estão não-sendo, muito bem vestidos de tristezas
esparsas e remorsos vãos. Cada um porta a máscara da ocasião: ar soturno,
silêncio inútil, flores de plástico e vela nas mãos, caminhando rumo ao túmulo,
nos cemitérios antigos, ou às lápides, em meio a verde grama nos cemitérios
modernos. Aliás, estes parecem ter sido criados para amenizar as dores
provindas da finitude da condição humana. Ou, talvez, confirmar esta condição.
Há um misto de tristeza e desolação e um clima de festa. De
um lado, os parentes dos mortos; do outro, uma legião de vivos fagueiros, que
despertam, também ali, o furor consumista de quem deseja homenagear seus
defuntos com flores artificiais, frases feitas e velas ornadas. Paira uma aura
meio tragicômica, pois se há vida, que não passa de sucessivos ensaios de
vaidade, há a morte, que é o fim de todas as vaidades.
Quanta glória pressentida, quantos sonhos frustrados, quanta
riqueza inútil, quanta vaidade vã ali repousa!! Se do lado de baixo tudo isso
já se esboroou, do lado de cima, os vivos continuam à procura de algo que lhe
escapa à compreensão e lhe serve de leitmotiv,
de arqué de tudo, ou coisa que o
valha. Onde encontrar explicação? O cemitério, certamente, é o ambiente
apropriado. Ali o homem descobre que não passa de um cadáver adiado, de um
monte de lama fétida, repousando sob a aparência enganosa de sepulcros caiados
ou de lápides discretas em que se inscrevem seu nome e período de existência.
A filosofia de cemitérios abre espaço também para que se
reflita sobre o medo do homem de ser esquecido. Os cemitérios modernos, que
traduzem mais senso comercial, parecem ter acertado na mosca ao retirarem
cruzes, estátuas e retratos, pois com a ausência desses signos sepulcrais, a
imagem do defunto não se torna tão obsedante no espírito do visitante, e ele é
esquecido com maior rapidez. Os cemitérios antigos, além de ostentarem maior
soturnidade no ambiente pela presença daqueles signos e ícones, trazem
inscritos nas lápides textos em que se ressalta ano de nascimento e falecimento
do habitante daquele lugar e, como a querer driblar o esquecimento, relevam as
eternas saudades de quem fica...
Um filósofo de cemitérios sempre leva aos vivos a
advertência de que não existe motivo de preocupação, pois, ao chegar o momento
de suportar com mortal indiferença sete palmos de terra sobre os peitos ou o eterno
encarceramento das catacumbas, a cada 2 de novembro, ele pontualmente será
lembrado... E La nave vá.
Nenhum comentário:
Postar um comentário