reflexões 2
por Francisco Hugo Barroso Martins Junior, segunda, 23 de Janeiro de 2012 às 01:26
- Não consta que Machado de Assis possuísse qualquer formação acadêmica. Autodidata, exsurgiu da própria seiva e, com ingente esforço, legou à literatura brasileira obra que o coloca na condição de um dos maiores romancistas da humanidade. Embora assim reconhecido pelo grande público e pela crítica literária de ontem e de hoje, houve quem disso dissentisse: o crítico sergipano Sílvio Romero. Conta-nos Raimundo Magalhães Júnior, em obra biográfica, que tudo que Machado publicava recebia verrrinas e aguilhoadas daquele. Machado sempre se mantinha silente. Quando surgiu o obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, Sílvio Romero não regateou elogios, reconhecendo a grandeza da obra. Machado de Assis, cavalheiro que era, manteve-se aferrado à sua gélida e muda indiferença. Sílvio era realmente muito injusto. Na obra Os Inimigos de Machado de Assis, o escritor maranhense Josué Montello, traz à tona o fato de que o crítico sergipana considerava Tobias Barreto maior poeta que Antonio de Castro Alves. Ora, o primeiro, embora, aqui e ali, garatujasse versos de pouca grandeza, era homem mais voltado à reflexão acerca da filosofia do Direito, sobremaneira aquela atrelada ao pensamento alemão. Já o genial Castro Alves, morto aos vinte e quatro anos, deixou obra poética de rara qualidade, seja de orientação lírica, seja de sabor épico. Basta o poema O Navio Negreiro, retirado do livro Os Escravos, para que o poeta baiano receba todos os encômios de todas as gerações.
- Machado, além de romancista e contista, também escreveu poesias, crônicas, teatro, crítica literária, bem como epistolografia (arte de escrever cartas). Sua obra está disitribuída em trinta e um volumes. Embora já revelasse, nas primeiras obras, tendência para o que vai na alma humana, na chamada obra de maturidade, esse pendor mais se exacerbou. Assim, tornou-se escafandrista do que se esconde nos escaninhos mais profundos da psiquê do ser humano, a quem Pascal chamou de "caniço pensante." Outro elemento presente na cosmovisão do "bruxo do Cosme Velho" é a descrença absoluta nas reais intenções humanas, de regra, acobertadas por máscaras e papéis sociais de onde dimanam o egoísmo, a ânsia pelo poder, pela riqueza e pela glória, sem atentar para sua propria insignificãncia e para a inutilidade desse esforço vão.
- Convidamos o leitor a folhear o romance Memória Póstumas de Brás Cubas e a se deter no Capítulo VII, intitulado O Delírio. Aqui encontrará pasto para refletir sobre a fragilidade humana, a frustração de nossos anelos e a indiferença da natureza em relação à nossa vida e ao nosso destino final. Tudo se reduz a nada, o que justifica o rótulo de niilista (nihi, do latim, significa nada), atribuído a Machado. Em seguida, dirigir-se ao último capítulo da obra, Das Negativas, metáfora da inutilidade de qualquer esforço, visando à conquista de qualquer ideal. Lembramos aqui uma passagem que abre O Eclesiastes: "vanitas vanitatum et omnia vanitas" ( vaidade das vaidades e tudo é vaidade). A isso se reduz todos os projetos humanos, na cosmovisão cética desse romancista tão pouco visitado e revisistado e, por isso, tão desconhecido...
- Ler Machado é lidar com obra de autoajuda. Não aquela que é vendida a conta-gotas como panacéia de todos os nossos males, mas a que faz refletir sobre "o legado de nossa miséria", locução com que o romancista fluminense fecha o romance aqui referido. É isso aí...
Nenhum comentário:
Postar um comentário