REFLEXÕES NADA CRETINAS
HUGO
MARTINS
Conta-se que Diógenes, o
Cínico, deambulava por uma rua de Atenas, erguendo sobre a cabeça uma lanterna
acesa, embora o sol estivesse a pino. Assombrado com aquele comportamento
insólito, um transeunte indagou do filósofo o porquê daquilo. O discípulo de
Antístenes não titubeou: disse procurar um homem na Grécia. Como não
encontrava, resolveu recorrer à luz. Era uma época de decadência moral... Ao
mesmo Diógenes atribui-se outra historieta singular. Diz-se que o filósofo
defendia a tese de que a felicidade do homem estaria em não desejar ele mais do
que o necessário para sobreviver. Por isso, era proprietário apenas de um
lençol que lhe cobria a nudez. Morava no interior de um barril. Era o que
possuía. Contam que, certa feita, Alexandre Magno, que já ouvira falar das
sábias excentricidades do pensador cínico, manifestou desejo de conhecê-lo. Há
quem diga que Alexandre chegara ao barril do filósofo no finzinho da tarde.
Aproximando-se da entrada do barril, curvou-se, apresentou suas credenciais de
homem todo poderoso e perguntou a Diógenes o que ele, Alexandre, poderia fazer
por ele, Diógenes. Dizem que este sorriu e disse ao grande Alexandre que se
afastasse e deixasse a luz entrar no barril, pois ele, Alexandre não podia dar
a Diógenes o que Alexandre não tinha: a luz. Também era um tempo de
decadência moral... O filósofo, entretanto, mantinha-se assentado, firmemente,
nas pilastras de sua coerência.
Toda
vez que as comunidades humanas adoecem moralmente, surgem vozes corajosas,
deblaterando contra esse estado de coisas. Tal Diógenes, outros moralistas
também se insurgem contra comportamentos nocivos ao grupo. Apequenar a espécie
humana, ao invés de enaltecê-lo, é atitude que suscita reflexões. Nesses
momentos, mais e mais vem à tona o problema ético. Aliás, nos dias de hoje,
tornou-se corriqueiro ouvir-se que fulano ou sicrano não agiu com ética. Quando
não se fala da não observância, por parte de determinadas categorias
profissionais, do Código de Ética, como sói acontecer com médicos, advogados e
jornalistas. Na verdade, no último exemplo, dever-se-ia falar não de Código de
Ética, mas de Manual Deontológico.
O comportamento ético ou o comportamento
antiético são situações fáticas encontradiças nas mais comezinhas situações
cotidianas. Não se encontra o problema ético apenas nos contextos solenes de
manuais e obras filosóficas. Também não se entremostra apenas no cotidiano de
homens bem nascidos ou cultos. Não. É um problema humano, demasiadamente
humano.
Monteiro Lobato, no conto Um Homem
de Consciência, retrata o perfil de João Teodoro. Testemunhava este o gradativo
processo de decadência por que passava Itaoca, sua cidade natal. As pessoas que
emprestavam à cidade alguma importância no concerto dos municípios aos poucos
iam abandonando-a. Um dia, nomearam João Teodoro delegado de Itaoca. Nenhuma surpresa, era ele um homem inscrito
entre os bons e retos. A surpresa maior ocorreu quando amanheceu o dia, e João
Teodoro, montado em sua eguinha e puxando outra pelo cabresto, atravessava as
ruas da cidade como se pretendesse partir em viagem. Quando alguém lhe
perguntou para onde se botava, disse que ia embora, pois em cidade que tinha
como delegado João Teodoro ele não morava. Quem conhece Lobato bem sabe o que
se esconde nas entrelinhas do conto.
Se há homens de consciência, também
os há sem consciência. Se há o político pilantra que, descaradamente, desvia as
verbas da merenda escolar, alocando-as na construção e alindamento de casas de
praia; também há o consumidor inescrupuloso que embolsa o troco a mais que o
caixa do supermercado inadvertidamente a ele passa. Se há o policial corrupto,
recebedor de toco para prevaricar; há o professor que vende sua aula de acordo
com o preço desta, pago nas bodegas pedagógicas. Um e outro esquecem a nobreza
do ofício. Ao lado do médico argentário, há o locutor televisivo ufanista, que,
irradiando a partida de futebol, tece loas à “malandragem” do jogador desleal
que burla a vigilância do árbitro, ao cometer uma infração de natureza grave.
Quer dizer: na questão do comportamento ético ou contrário à ética, encontra-se
o homem, que elege valores que hominizam ou reificam o outro, na feliz
expressão de Teillard Chardin. É tudo uma questão de consciência, de contexto,
de educação, de momento histórico.
“Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Essa espécie de parêmia do pensador espanhol
Ortega y Gasset inscreve o homem como animal histórico, portanto fruto do
vir-a-ser, do devir, do eterno movimento heraclitiano. Nesse substituir o dado
pelo construído, vai o homem promovendo mudanças na natureza para torná-la mais
dócil às necessidades humanas. Na construção da cultura e nas mutações por que
esta passa é que se inscreve a compreensão do que vem a ser ética. Em outras
palavras, a ética é uma ciência da cultura, em contraposição às ciências da
natureza. Enquanto estas são ciências do ser, aquela é ciência do dever-ser. Se
as primeiras se regem por leis mais ou menos rígidas ou predeterminadas, esta
assume facetas diferentes, sempre em consonância com o momento histórico de uma
moral então vigente. Ética e moral sempre andam juntas. Enquanto a primeira
teoriza, a segunda se manifesta como um fenômeno provindo da natureza gregária
do homem.
É, pois, na caminhada histórica que o homem elege
comportamentos valorados, que o direcionam para o bem e para o bom. Onde
encontrar o bem-estar no mundo? No hedonismo barato? No hedonismo
epicurista? No pragmatismo? No
eudemonismo? A felicidade do homem está onde ele a coloca. “Essa felicidade
que supomos, árvore dourada que sonhamos toda arreada de dourados pomos,
existe, sim, mas nós não a alcançamos: porque está sempre onde nós a pomos e
nunca a pomos onde nós estamos”, diz Vicente de Carvalho. Eis o drama
humano. Na busca desse fim último, o homem, ser vocacionado para viver em
sociedade, não pode fugir à presença do outro. Constrói seus conceitos e (pre)
conceitos sob os efeitos do olhar do outro. É algo parecido com os personagens
de Sartre na obra A Portas Fechadas, em que aqueles, situados geograficamente
numa espécie de quarto fechado, são obrigados a viver uns com os outros, embora
se odeiem mutuamente. “O inferno são os outros”. É nesse inferno em que vive o
homem moderno, correndo feito um louco à procura da glória, do poder e
esquecendo as relações de criatura para criatura. Para remediar esse estado de
coisas só formando o homem bom, os joões teodoros hominizados e não reificados,
portadores de lanternas cujo facho ilumine novos caminhos...
Nenhum comentário:
Postar um comentário