segunda-feira, 30 de janeiro de 2012


BIG BROTHER



                                                                             Hugo Martins




Em 1949, o romancista George Orwell, publicou o livro 1984. No conteúdo irônico da obra, Orwell veicula uma espécie de teoria do Estado, não centrada na forma como esse ente político se organiza com o fim de promover o bem comum, mas voltada, sobretudo, para denunciar a vigilância que o Leviatã impõe ao homem. Essa tarefa de monitorar os passos dos habitantes da polis é comandada pela figura do Big Brother, cuja vontade é imposta pela filosofia do dois mais dois são cinco. Quem contra isso se insurgisse fatalmente teria suas convicções esfaceladas pelos métodos persuasivos da tortura, apanágio dos Estados totalitários, acabando por concordar com aquela conta sinistra.

Pois bem. Ultimamente, adotou-se, no Brasil, um tal Big Brother não para vigiar, pois respira-se, malgré tout, alguma coisa de democrático nesse País do Carnaval, embora nossa privacidade seja invadida por outros métodos permitidos pelo Estado. A coisa trágica dá-se mais ou menos assim: coloca-se numa casa um magote de imbecilóides que, participando duma espécie de jogo para revelar o mais ladino, com o tempo, são mitificados pelo poviléu, aparecem nos meios de comunicação de massa, posam para revistas, quando não caem na prostituição de alto luxo. Por outro lado, a população tem sua curiosidade espicaçada e acompanha sofregamente o tal programinha televisivo, que nada tem de grandioso ou instrutivo. É o supra-sumo da sandice. Apela-se para a vocação para a curiosidade própria de todo homem e promove-se uma narcotização generalizada com doses cavalares de idiotia compartilhada.

Eis aí uma violência que se não quer enxergar. Método eficaz de carcomer o senso crítico, embotar a capacidade de refletir, promover a descerebração cotidiana, atinge, porém, seu objetivo: afastar o pensamento de outras realidades, escondidas pelo manto diáfano da alienação nossa de cada dia.

Ora, o professor há de retirar algo de proveitoso dessa tragicomédia, partindo de um raciocínio simples: se se pretende alimentar a curiosidade ínsita a todo homem, por que não convidar o alunado a um passeio pelo mundo mágico da literatura?  Dar a conhecer a poesia pessoana... A prosa límpida de Machado de Assis... A grandiosidade das epopéias de Homero, de Virgílio e de Camões... A poesia sofrida de Bandeira... A exuberância da prosa alencarina... A vivacidade das crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos... A poesia metafísica de Drummond... A prosa quase fescenina de Jorge Amado... Há obras suficientes não só para satisfazer a curiosidade de todos pelos problemas humanos mas também para preencher os vazios existenciais. Aproveita-se também a oportunidade para uma aproximação mais efetiva com as diversas normas lingüísticas encontradiças na obra literária, bem como para o aperfeiçoamento da expressão falada ou escrita.

Obtém-se, desse modo, duplo lucro: de um lado, alija-se o lixo eletrônico e a passividade intelectual; de outro, alimenta-se a alma com o que de mais nobre existe para enaltecer o gênero humano e para interpretar a realidade: a arte literária.





             









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