segunda-feira, 30 de janeiro de 2012


O MAIOR INIMIGO DO HOMEM

                                                                                         Hugo Martins







                        Quando o homem salta do ventre materno , surgindo para vida, já começa a morrer. Com efeito, à medida que o tempo passa, e o homem mais toma consciência de sua finitude, a angústia e o medo lhe assaltam o espírito. O tempo está sempre em seu encalço. Não houvesse o tempo e o movimento, categorias comuns à Física e à Filosofia, o sofrimento humano findaria. Impotente ante a fatalidade de estar obrigado a assistir a seu próprio drama – a consciência da ação deletéria do tempo em si mesmo – o bicho-homem procura consolo nas religiões e outras saídas mágicas.

           

            De início, inventou os deuses; depois, procurou descobrir a pedra filosofal e a fonte da eterna juventude. Em vão. Desde então, tropeçando nos ardis que a imaginação lhe apronta, não desiste do intento de encontrar esse eldorado onírico. Enquanto isso, o tempo passa, e a ilusão da glória, da vaidade e do poder turbilhona nos escaninhos mais esconsos da cachola desse ser, a quem Pascal chamou de “caniço pensante”. Nesse ramerrão, vai o “caniço” alimentando sonhos e tentando comprar a marcha do tempo. Inútil.

           

            Enquanto se embala no sonho e na esperança de travar a marcha inexorável das horas – num risível e trágico esforço – entrega-se ao ludismo de enganar-se a si mesmo. Agora, torna-se mais ridículo ainda.

           

            A indústria de comésticos lucra muito na tentativa sincera e onerosa de ajudar o homem em iludir a si mesmo. São produtos de toda ordem, chegados às prateleiras de casas comerciais, acenando com novidades; são “descobertas” científicas, anunciando as propriedades medicinais encontradiças em toda sorte de não se sabe lá o quê; são comprimidos, cápsulas, xaropes e placebos outros, adormentando as angústias cotidianas. Enfim, a parafernália do “tudo pela juventude e pela felicidade” é uma festa macabra de frustrações e desenganos.  Na filosofia dos espelhos, não há inverdades...

           

            Cria o homem a mania de consumir por consumir. No lusco-fusco feérico das catedrais de consumo, vende a alma, dá a família em penhor, gasta o que não pode, mente, trai, freqüenta o cadastro dos inadimplentes costumeiros e contumazes, mas não comete o pecado de não se vestir conforme os parâmetros da última moda... Sem contar que não cai na esparrela de não comprar o carro que lhe vai tirar as noites de sono... Coloca seu bem-estar na satisfação de adquirir não só o necessário, mas também o desnecessário e o supérfluo. Aí estaria a sede de grande parte do infortúnio humano. Inútil também...

           

            Bem andou Diógenes, discípulo de Antístenes, quando, em sua ética cínica, encontrava a felicidade em não criar falsas necessidades para si mesmo. E bem, do mesmo modo, andou Epicuro que, com um pouco d’água e um pedaço de pão rivalizava com o próprio Zeus.

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