O MAIOR INIMIGO DO HOMEM
Hugo Martins
Quando
o homem salta do ventre materno , surgindo para vida, já começa a morrer. Com
efeito, à medida que o tempo passa, e o homem mais toma consciência de sua
finitude, a angústia e o medo lhe assaltam o espírito. O tempo está sempre em
seu encalço. Não houvesse o tempo e o movimento, categorias comuns à Física e à
Filosofia, o sofrimento humano findaria. Impotente ante a fatalidade de estar
obrigado a assistir a seu próprio drama – a consciência da ação deletéria do
tempo em si mesmo – o bicho-homem procura consolo nas religiões e outras saídas
mágicas.
De
início, inventou os deuses; depois, procurou descobrir a pedra filosofal e a
fonte da eterna juventude. Em vão. Desde então, tropeçando nos ardis que a
imaginação lhe apronta, não desiste do intento de encontrar esse eldorado
onírico. Enquanto isso, o tempo passa, e a ilusão da glória, da vaidade e do
poder turbilhona nos escaninhos mais esconsos da cachola desse ser, a quem
Pascal chamou de “caniço pensante”. Nesse ramerrão, vai o “caniço” alimentando
sonhos e tentando comprar a marcha do tempo. Inútil.
Enquanto
se embala no sonho e na esperança de travar a marcha inexorável das horas – num
risível e trágico esforço – entrega-se ao ludismo de enganar-se a si mesmo.
Agora, torna-se mais ridículo ainda.
A
indústria de comésticos lucra muito na tentativa sincera e onerosa de ajudar o
homem em iludir a si mesmo. São produtos de toda ordem, chegados às prateleiras
de casas comerciais, acenando com novidades; são “descobertas” científicas,
anunciando as propriedades medicinais encontradiças em toda sorte de não se
sabe lá o quê; são comprimidos, cápsulas, xaropes e placebos outros,
adormentando as angústias cotidianas. Enfim, a parafernália do “tudo pela
juventude e pela felicidade” é uma festa macabra de frustrações e
desenganos. Na filosofia dos espelhos,
não há inverdades...
Cria
o homem a mania de consumir por consumir. No lusco-fusco feérico das catedrais
de consumo, vende a alma, dá a família em penhor, gasta o que não pode, mente,
trai, freqüenta o cadastro dos inadimplentes costumeiros e contumazes, mas não
comete o pecado de não se vestir conforme os parâmetros da última moda... Sem
contar que não cai na esparrela de não comprar o carro que lhe vai tirar as
noites de sono... Coloca seu bem-estar na satisfação de adquirir não só o
necessário, mas também o desnecessário e o supérfluo. Aí estaria a sede de
grande parte do infortúnio humano. Inútil também...
Bem
andou Diógenes, discípulo de Antístenes, quando, em sua ética cínica,
encontrava a felicidade em não criar falsas necessidades para si mesmo. E bem,
do mesmo modo, andou Epicuro que, com um pouco d’água e um pedaço de pão
rivalizava com o próprio Zeus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário