O GURU III
Hugo Martins
Hoje me encontrei com
Ridendo Sic. Estava ele sentado a uma mesa de uma barraca de praia, olhando o
vaivém ritmado das ondas, que bordavam em níveos frocos a areia suja da praia. Sobre
a toalha encardida, enfileiravam-se garrafas de cerveja. Convidou-se a sentar
e, sem mais nem menos, encheu-me um copo com o néctar espumoso e gelado.
Banhistas se deixavam fritar aos raios quentes do Sol. Mulheres, em biquínis
sumaríssimos, desfilavam, provocando a libido sequiosa dos homens. Das mesas
circundantes, o matraquear de ávidos comedores de caranguejo. Crianças corriam,
bombeiros, encarapitados no alto de observatórios de madeira, esticavam a vista
nas adjacências, e marmanjos jogavam futebol. Na manhã pródiga de sol as
pessoas aproveitavam para quebrar as tensões do cotidiano. Súbito, juntou-se ao
burburinho um magote de zoadentos, distribuindo santinhos, com o retrato
risonho de candidatos às eleições municipais...
À procura de um mote, a fim
de provocar o diálogo, perguntei a Ridendo que ele pensava sobre a política.
Deixou escapar seu sardônico sorriso, cuspinhou, sorveu um largo gole, depôs o
copo, encheu-o de novo e, olhando-me fixamente, disse:
- Meu prezado, a política,
desculpe-me o chavão, é a arte de gerir a pólis. É uma imposição. Sem ela a
comunidade não existe, devido à condição gregária homem. Isso está em
Aristóteles. Mas creio que sua pergunta direciona-se à questão partidária. Você
já pensou na hipótese de não ser necessário pagar vultosas quantias do erário
àqueles que demonstram tanto afã em fazer parte do grupo diretivo do Estado?
Quer dizer, o sujeito disputaria eleições para prestar um múnus público. Nessas
condições, existiriam pessoas movidas pelo ideal em ocupar cargos políticos?
Aduzi:
- Acho difícil. Até mesmo
para prestar serviço no dia das eleições – Presidentes de Mesa, mesários,
suplentes etc. – só o fazem porque a coisa tem caráter de obrigatoriedade.
Quando o agente é servidor público, “aceita” o encargo porque, passadas as
eleições, será brindado com alguns dias de licença, o que constitui alguma
vantagem... Por isso, respondendo a sua pergunta, sou persuadido a afirmar que,
por trás do “idealismo” da política partidária, esconde-se um mar risonho de
perversa hipocrisia.
Ridendo Sic desenhou um
ríctus, apertando os lábios. Em seguida, bateu as mãos uma à outra, como se
estivesse me aplaudindo, e continuou:
- Pronto. Você parece haver
intuído como se monta o teatro. Com efeito, é de se estranhar alguém gastar
tanto dinheiro (não se sabe tirado de que fonte), tanta saliva; ensaiar tanto
sorriso e tantos salamaleques para conseguir ser alçado a um cargo qualquer.
Afora as promessas que nunca haverão de cumprir, há os gestos mominos nos
comícios eletrônicos, o colocar a mão no ombro do trabalhador humilde e o alçar
nos braços criancinhas catarrentas e famintas... Ensaia-se, assim, a
ópera-bufa, cujo desfecho desembocará, fatalmente, no banquete de permitidas
roubalheiras, de enriquecimentos ilícitos e de atos de improbidade
administrativa, entretecidos por mentes ladinas, tão ladinas, num jogo cretino em
que o próprio Satanás não ousaria concorrer...
- Então, meu cético homem,
não existiria nesse jogo trágico, alguma exceção?
- Não, não creio. A não ser
que alguém tenha a coragem de apontar um só exemplar dessa súcia de desavergonhados
que tenha cumprido algum mandato sem
que, ao fim dele, não tenha auferido algum expressivo lucro pecuniário.
Desculpe-me a franqueza: o sujeito que ingressa na política partidária, por
mais bem intencionado que seja, traz nos escaninhos da alma, alguma vocação para
locupletar-se ilicitamente. Deles há que fazem verdadeiras fortunas para si e
para os familiares. A coisa é tão atraente, que os mandatos, por manobras
inimagináveis, são passados para os descendentes, numa espécie de sucessão
hereditária com ares de legalidade...
Depois do “enxugamento” de
uma dúzia de cervejas, arrisquei a pergunta:
- Nem nas esquerdas você põe
fé?
- Vou ilustrar um episódio
atribuído a um economista brasileiro da chamada ala direita, extremamente culto
e bastante assemelhado a uma raposa. Perguntado sobre a esquerda, disse: “No
Brasil, na há esquerda, existe canhota”. Continuando o discurso, ironizou: “Aqui,
na terra tupiniquim, a melhor maneira de se chegar à direito é pela esquerda.” Mais
comicamente, ajuntou; “ A esquerda no Brasil só se une na cadeia”. Minha
nossa!!! Realmente, existem exemplos, a
mancheia, de figuras políticas que bem ilustram as palavras daquele economista.
A questão não se reduz a ideologias. Qualquer homem pode assumir postura
política sem se bandear para essa ou aquela tendência. Ambas, direita e
esquerda, se resumem a uma questão de posição geográfica numa assembleia.
Aliás, foi durante a Revolução Francês que as expressões foram cunhadas.
Arrisquei:
-
Aqui em Fortaleza, que candidato estaria mais próximo de sua preferência nas
eleições que se aproximam:
-
Nenhum. São todos farinha do mesmo saco. Troco um pelo outro sem esperar troco.
Você diria que, de algum modo, eu estaria votando. E não se engana... Não tenho
nada a escolher. Os vivaldinos são todos iguais... Seria um contrassenso
efetuar escolha no elenco de artistas, cujos talentos se ombreiam.
O Sol
já ia alto. Quinze cervejas jaziam sobre a mesa, indiferentes à propaganda
daquela malta dos andarilhos aduladores. Pedimos a “saideira”, pois não somos
chegados a contas ímpares. Paga a despesa, despedimo-nos num demorado aperto de
mãos, cada um à procura do seu caminho.
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