domingo, 29 de julho de 2012


O GURU III

                                                     Hugo Martins

Hoje me encontrei com Ridendo Sic. Estava ele sentado a uma mesa de uma barraca de praia, olhando o vaivém ritmado das ondas, que bordavam em níveos frocos a areia suja da praia. Sobre a toalha encardida, enfileiravam-se garrafas de cerveja. Convidou-se a sentar e, sem mais nem menos, encheu-me um copo com o néctar espumoso e gelado. Banhistas se deixavam fritar aos raios quentes do Sol. Mulheres, em biquínis sumaríssimos, desfilavam, provocando a libido sequiosa dos homens. Das mesas circundantes, o matraquear de ávidos comedores de caranguejo. Crianças corriam, bombeiros, encarapitados no alto de observatórios de madeira, esticavam a vista nas adjacências, e marmanjos jogavam futebol. Na manhã pródiga de sol as pessoas aproveitavam para quebrar as tensões do cotidiano. Súbito, juntou-se ao burburinho um magote de zoadentos, distribuindo santinhos, com o retrato risonho de candidatos às eleições municipais...

À procura de um mote, a fim de provocar o diálogo, perguntei a Ridendo que ele pensava sobre a política. Deixou escapar seu sardônico sorriso, cuspinhou, sorveu um largo gole, depôs o copo, encheu-o de novo e, olhando-me fixamente, disse:

- Meu prezado, a política, desculpe-me o chavão, é a arte de gerir a pólis. É uma imposição. Sem ela a comunidade não existe, devido à condição gregária homem. Isso está em Aristóteles. Mas creio que sua pergunta direciona-se à questão partidária. Você já pensou na hipótese de não ser necessário pagar vultosas quantias do erário àqueles que demonstram tanto afã em fazer parte do grupo diretivo do Estado? Quer dizer, o sujeito disputaria eleições para prestar um múnus público. Nessas condições, existiriam pessoas movidas pelo ideal em ocupar cargos políticos?

Aduzi:

- Acho difícil. Até mesmo para prestar serviço no dia das eleições – Presidentes de Mesa, mesários, suplentes etc. – só o fazem porque a coisa tem caráter de obrigatoriedade. Quando o agente é servidor público, “aceita” o encargo porque, passadas as eleições, será brindado com alguns dias de licença, o que constitui alguma vantagem... Por isso, respondendo a sua pergunta, sou persuadido a afirmar que, por trás do “idealismo” da política partidária, esconde-se um mar risonho de perversa hipocrisia.

Ridendo Sic desenhou um ríctus, apertando os lábios. Em seguida, bateu as mãos uma à outra, como se estivesse me aplaudindo, e continuou:

- Pronto. Você parece haver intuído como se monta o teatro. Com efeito, é de se estranhar alguém gastar tanto dinheiro (não se sabe tirado de que fonte), tanta saliva; ensaiar tanto sorriso e tantos salamaleques para conseguir ser alçado a um cargo qualquer. Afora as promessas que nunca haverão de cumprir, há os gestos mominos nos comícios eletrônicos, o colocar a mão no ombro do trabalhador humilde e o alçar nos braços criancinhas catarrentas e famintas... Ensaia-se, assim, a ópera-bufa, cujo desfecho desembocará, fatalmente, no banquete de permitidas roubalheiras, de enriquecimentos ilícitos e de atos de improbidade administrativa, entretecidos por mentes ladinas, tão ladinas, num jogo cretino em que o próprio Satanás não ousaria concorrer...

- Então, meu cético homem, não existiria nesse jogo trágico, alguma exceção?

- Não, não creio. A não ser que alguém tenha a coragem de apontar um só exemplar dessa súcia de desavergonhados que tenha cumprido algum mandato sem  que, ao fim dele, não tenha auferido algum expressivo lucro pecuniário. Desculpe-me a franqueza: o sujeito que ingressa na política partidária, por mais bem intencionado que seja, traz nos escaninhos da alma, alguma vocação para locupletar-se ilicitamente. Deles há que fazem verdadeiras fortunas para si e para os familiares. A coisa é tão atraente, que os mandatos, por manobras inimagináveis, são passados para os descendentes, numa espécie de sucessão hereditária com ares de legalidade...

Depois do “enxugamento” de uma dúzia de cervejas, arrisquei a pergunta:

- Nem nas esquerdas você põe fé?

- Vou ilustrar um episódio atribuído a um economista brasileiro da chamada ala direita, extremamente culto e bastante assemelhado a uma raposa. Perguntado sobre a esquerda, disse: “No Brasil, na há esquerda, existe canhota”. Continuando o discurso, ironizou: “Aqui, na terra tupiniquim, a melhor maneira de se chegar à direito é pela esquerda.” Mais comicamente, ajuntou; “ A esquerda no Brasil só se une na cadeia”. Minha nossa!!!  Realmente, existem exemplos, a mancheia, de figuras políticas que bem ilustram as palavras daquele economista. A questão não se reduz a ideologias. Qualquer homem pode assumir postura política sem se bandear para essa ou aquela tendência. Ambas, direita e esquerda, se resumem a uma questão de posição geográfica numa assembleia. Aliás, foi durante a Revolução Francês que as expressões foram cunhadas.

            Arrisquei:

            - Aqui em Fortaleza, que candidato estaria mais próximo de sua preferência nas eleições que se aproximam:

            - Nenhum. São todos farinha do mesmo saco. Troco um pelo outro sem esperar troco. Você diria que, de algum modo, eu estaria votando. E não se engana... Não tenho nada a escolher. Os vivaldinos são todos iguais... Seria um contrassenso efetuar escolha no elenco de artistas, cujos talentos se ombreiam.

            O Sol já ia alto. Quinze cervejas jaziam sobre a mesa, indiferentes à propaganda daquela malta dos andarilhos aduladores. Pedimos a “saideira”, pois não somos chegados a contas ímpares. Paga a despesa, despedimo-nos num demorado aperto de mãos, cada um à procura do seu caminho.








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