O GURU II
Hugo Martins
A
hora não era propícia. Chovia torrencialmente em Fortaleza. Sob a marquise do
Cine São Luiz, encontrei-o. Porte garboso, cabelos revoltos, sobrecenho
arqueado, um permanente riso nos lábios finos, emoldurados por um basto bigode,
que lembrava Pancho Vila. A blusa quadriculada de mangas compridas, enfiadas no
cós de uma calça de mescla azul, dava-lhe o ar de quem saíra de algum filme de
faroeste de John Ford. Cumprimentou-me maquinalmente e fez a clássica pergunta
de como iam as coisas... Falei-lhe de que me encontrava meio decepcionado com a
aplicação da justiça no país, Fiz a observação apenas para provocá-lo. A coisa
funcionou... Em poucos minutos, uma avalanche de diatribes e indignações jorrou
como cachoeira... Não havia em sua fala nenhum laivo de ódio. Falava com calma
como se assunto tivesse sido previamente preparado por um professor que ia
ministrar sua aula. Fazia no ar arabescos com as mãos, num jogo não estudado,
como se cada gesto fosse o movimento de uma batuta a acompanhar ritmicamente o
discurso-sinfonia. Quedei-me a ouvi-lo...
Cofiando
o bigode, observou:
- Meu
caro, a injustiça neste país começa quando o indivíduo escolhe cursar Direito
sem demonstrar nenhuma vocação para tal. O candidato sequer desconfia do que
trata aquela ciência. Antes da Constituição de 1988, quem quisesse ingressar no
curso de Direito bastava passar em frente do prédio da faculdade e dar bom dia
ao porteiro. Pronto... Estava matriculado. Hoje, a concorrência homérica
explica-se pela democratização por que passou o país.
Acrescentou:
- O
pior é que nas salamancas estuda-se muito direito e jurisprudência, mas pouco
caso se faz de outras ciências afins. O candidato sai um medíocre “bacharégua”,
vomitando a linguagem barroca de doutrinadores e tribunais
, mas, de regra, ignorando os mais comezinhos conceitos de Filosofia ou
Sociologia. Isso sem falar na indigência redacional... Deslizes linguísticos
crassos, raciocínios tortuosos e torturantes, bem como verborragia desgraciosa e sem verniz temperam
a tônica dos trabalhos escritos, produzidos a muque e a duras penas. Literatura
nem pensar... É coisa de mulher ociosa e sonhadora ou de quem não tem o que
fazer. É trágico... Às sucessivas fornadas de “bacharéguas” não interessa o
direito pelo direito. Todos estão teleguiados para concursos públicos. Em muito
se assemelham ao professor “dador de aula” que, vende a própria alma para
ocupar cargo de importância na instituição. A sala de aula, para aqueles
senhores, está inscrita entre os nove círculos do inferno de Dante.
Perguntei:
- Se isso constitui invisível e
ingente injustiça, o que daí advém?
Foi lacônico:
- A
tragédia viva, que todos fingem não enxergar.
Fez-se meditativo e, num átimo, disparou:
- Veja
você que os tribunais sempre se caracterizaram pela enxurrada de papéis que
abarrotam prateleiras e birôs, em meio à poeira e ao bafio. Passam-se anos e
anos pra se obter um comando sentencial... Falta de julgadores? Excesso de
trabalho? Prefiro silenciar sobre o assunto. Ora, companheiro, criaram um tal
de Juizado Especial Cível e Criminal, que o povo continua denominando Juizado
das Pequenas Causas, a fim de acelerar o trabalho do Judiciário. Não rio para
não chorar. Intencionavam dar maior celeridade ao processo, sobretudo pela
maior recorrência à oralidade... Imagine você que há pessoas que esperam por
mais de dois anos por uma resposta a uma questiúncula envolvendo briga de
vizinhos... Isso é injustiça clamorosa... Aliás, advogados há que repetem
aquele velho e bolorento argumento de Ruy Barbosa de que a resposta atrasada do
Poder Judiciário aos pleitos já é, por si mesma, gritante injustiça... Nada de
original... Verbosidade inútil.
Com
uma pontinha de maldade, fiz uma pergunta nada diabólica, mas muito presente
nos meios de comunicação de massa em que juristas, enforcados em suas gravatas
de seda pura e arrotando erudição, costumam encontrar, teoricamente, a resposta
definitiva:
-
Ridendo Sic, o amigo concorda com reduzir a idade para responsabilizar
criminalmente menores que tenham atingido os dezesseis anos?
Olhou-me
de esguelha, apertou os lábios, balançou a cabeça e fuzilou:
- Meu
caro, criança em tal idade deveria estar na escola e não cheirando cola e
fumando craque... E, aduza-se, não sendo espancado pela polícia e execrada por
uma sociedade que se diz tão cristã. Podem considerar imputável a criança em
qualquer idade que a criminalidade não arrefecerá enquanto o Estado brasileiro
não tomar vergonha na cara e olhar com maior seriedade para a Educação. De que
adianta construir metrôs, aquários e outras obras faraônicas se nossas escolas
públicas estão entregues às baratas, com professores mal remunerados,
insatisfeitos e imotivados? A redução por que tanto clama a sociedade não passa
de hipocrisia das mais ferrenhas. Se fôssemos condenar todo menor infrator, que,
na realidade, necessita de cama, comida e educação, nosso falido sistema
presidencial não teria capacidade para abarcar tal população. Talvez uma solução
fosse enviar a criançada para o Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e
Câmaras Municipais, onde se come à farta, gasta-se, de roldão, o dinheiro
público e mete-se, impunemente, a mão no tesouro nacional, urdindo-se manobras de que o próprio Satanás duvida... Os
menores infratores só seriam prejudicados num aspecto: cursariam, sem muito
esforço, pós-graduação na arte de furtar, de extorquir e de embair a boa-fé...
Bem
sei que o Guru poderia puxar de seu baú sucessivas e lancinantes diatribes contra o que o povo chama justiça. Preferi não
dar mais cavaco à conversa. Eu ficaria ali o dia todo e as catilinárias não se
esgotariam. Além disso, a chuva cessara por completo e o Sol espraiava-se
prodigamente sobre a cidade de Nossa Senhora da Assunção. Apertamo-nos as mãos,
e cada um tomou seu rumo em busca de seus afazeres. Senti que valeu a pena
encontrar mais uma vez aquela alma despretensiosa e tão sintonizada com seu
tempo.
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