quinta-feira, 26 de julho de 2012


O GURU II

                                                                                   Hugo Martins



            A hora não era propícia. Chovia torrencialmente em Fortaleza. Sob a marquise do Cine São Luiz, encontrei-o. Porte garboso, cabelos revoltos, sobrecenho arqueado, um permanente riso nos lábios finos, emoldurados por um basto bigode, que lembrava Pancho Vila. A blusa quadriculada de mangas compridas, enfiadas no cós de uma calça de mescla azul, dava-lhe o ar de quem saíra de algum filme de faroeste de John Ford. Cumprimentou-me maquinalmente e fez a clássica pergunta de como iam as coisas... Falei-lhe de que me encontrava meio decepcionado com a aplicação da justiça no país, Fiz a observação apenas para provocá-lo. A coisa funcionou... Em poucos minutos, uma avalanche de diatribes e indignações jorrou como cachoeira... Não havia em sua fala nenhum laivo de ódio. Falava com calma como se assunto tivesse sido previamente preparado por um professor que ia ministrar sua aula. Fazia no ar arabescos com as mãos, num jogo não estudado, como se cada gesto fosse o movimento de uma batuta a acompanhar ritmicamente o discurso-sinfonia. Quedei-me a ouvi-lo...

            Cofiando o bigode, observou:

            - Meu caro, a injustiça neste país começa quando o indivíduo escolhe cursar Direito sem demonstrar nenhuma vocação para tal. O candidato sequer desconfia do que trata aquela ciência. Antes da Constituição de 1988, quem quisesse ingressar no curso de Direito bastava passar em frente do prédio da faculdade e dar bom dia ao porteiro. Pronto... Estava matriculado. Hoje, a concorrência homérica explica-se pela democratização por que passou o país.

            Acrescentou:

            - O pior é que nas salamancas estuda-se muito direito e jurisprudência, mas pouco caso se faz de outras ciências afins. O candidato sai um medíocre “bacharégua”, vomitando a linguagem barroca de doutrinadores e  tribunais  , mas, de regra, ignorando os mais comezinhos conceitos de Filosofia ou Sociologia. Isso sem falar na indigência redacional... Deslizes linguísticos crassos, raciocínios tortuosos e torturantes, bem como  verborragia desgraciosa e sem verniz temperam a tônica dos trabalhos escritos, produzidos a muque e a duras penas. Literatura nem pensar... É coisa de mulher ociosa e sonhadora ou de quem não tem o que fazer. É trágico... Às sucessivas fornadas de “bacharéguas” não interessa o direito pelo direito. Todos estão teleguiados para concursos públicos. Em muito se assemelham ao professor “dador de aula” que, vende a própria alma para ocupar cargo de importância na instituição. A sala de aula, para aqueles senhores, está inscrita entre os nove círculos do inferno de Dante.  

            Perguntei:

            - Se isso constitui invisível e ingente injustiça, o que daí advém?

Foi lacônico:

            - A tragédia viva, que todos fingem não enxergar.

Fez-se meditativo e, num átimo, disparou:

            - Veja você que os tribunais sempre se caracterizaram pela enxurrada de papéis que abarrotam prateleiras e birôs, em meio à poeira e ao bafio. Passam-se anos e anos pra se obter um comando sentencial... Falta de julgadores? Excesso de trabalho? Prefiro silenciar sobre o assunto. Ora, companheiro, criaram um tal de Juizado Especial Cível e Criminal, que o povo continua denominando Juizado das Pequenas Causas, a fim de acelerar o trabalho do Judiciário. Não rio para não chorar. Intencionavam dar maior celeridade ao processo, sobretudo pela maior recorrência à oralidade... Imagine você que há pessoas que esperam por mais de dois anos por uma resposta a uma questiúncula envolvendo briga de vizinhos... Isso é injustiça clamorosa... Aliás, advogados há que repetem aquele velho e bolorento argumento de Ruy Barbosa de que a resposta atrasada do Poder Judiciário aos pleitos já é, por si mesma, gritante injustiça... Nada de original... Verbosidade inútil.

            Com uma pontinha de maldade, fiz uma pergunta nada diabólica, mas muito presente nos meios de comunicação de massa em que juristas, enforcados em suas gravatas de seda pura e arrotando erudição, costumam encontrar, teoricamente, a resposta definitiva:

            - Ridendo Sic, o amigo concorda com reduzir a idade para responsabilizar criminalmente menores que tenham atingido os dezesseis anos?

            Olhou-me de esguelha, apertou os lábios, balançou a cabeça e fuzilou:

            - Meu caro, criança em tal idade deveria estar na escola e não cheirando cola e fumando craque... E, aduza-se, não sendo espancado pela polícia e execrada por uma sociedade que se diz tão cristã. Podem considerar imputável a criança em qualquer idade que a criminalidade não arrefecerá enquanto o Estado brasileiro não tomar vergonha na cara e olhar com maior seriedade para a Educação. De que adianta construir metrôs, aquários e outras obras faraônicas se nossas escolas públicas estão entregues às baratas, com professores mal remunerados, insatisfeitos e imotivados? A redução por que tanto clama a sociedade não passa de hipocrisia das mais ferrenhas. Se fôssemos condenar todo menor infrator, que, na realidade, necessita de cama, comida e educação, nosso falido sistema presidencial não teria capacidade para abarcar tal população. Talvez uma solução fosse enviar a criançada para o Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais, onde se come à farta, gasta-se, de roldão, o dinheiro público e mete-se, impunemente, a mão no tesouro nacional, urdindo-se  manobras de que o próprio Satanás duvida... Os menores infratores só seriam prejudicados num aspecto: cursariam, sem muito esforço, pós-graduação na arte de furtar, de extorquir e de embair a boa-fé...

            Bem sei que o Guru poderia puxar de seu baú sucessivas e lancinantes diatribes  contra o que o povo chama justiça. Preferi não dar mais cavaco à conversa. Eu ficaria ali o dia todo e as catilinárias não se esgotariam. Além disso, a chuva cessara por completo e o Sol espraiava-se prodigamente sobre a cidade de Nossa Senhora da Assunção. Apertamo-nos as mãos, e cada um tomou seu rumo em busca de seus afazeres. Senti que valeu a pena encontrar mais uma vez aquela alma despretensiosa e tão sintonizada com seu tempo.

           

           

           

             

           

           




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