O GURU (25-7-2012)
Hugo
Martins
Juro
de mãos postas que nunca precisei de guias espirituais... De regra, os
problemas do cotidiano, as pequenas cretinices, as mentiras convencionais e
outras baixezas espirituais, escamoteadas na pequenez de nossa alma, cuido de
remediá-las com o fluido invencível que dimana da Arte, sobremaneira da Música
e da Literatura.
A
primeira, bálsamo divino, encanta, enternece, conduz a alma para regiões
etéreas como se fosse um estupefaciente instaurador de indefinível paz... A
Serenata de Schubert, a Quinta Bachiana, a Serenata ao Luar, Tristesse, qualquer suíte de Bach, o
Adágio de Albinoni e outras que tais debelam quaisquer transtornos do espírito,
sobretudo se “curtidas” num cantinho solitário da sala, permanecendo o sujeito
ungido da firme intenção de não perder um só acorde. Instaura-se a quietude, o
embevecimento, a ternura, o silêncio interior...
A
segunda também é uma viagem. Diferente, porém, da primeira. Se aquela vem para
despertar o inconsciente e balançar o consciente, neles imprimindo o sortilégio
de embriagante misticismo vivificador, a última instaura a reflexão desacelerada,
controla a marcha lenta da mensagem para, ao final, povoar o espírito de toda
sorte de bons pensamentos...
A
propósito, o escritor francês André Gide, indagado acerca do que faria se não
fosse romancista, respondeu fleumaticamente: “Me mataria”. Quer dizer, para o
criador de La Sinphonie Pastorale, o
escrever é indispensável para se alimentar a consciência de que viver a vida é
não passar por ela como um cadáver ambulante... Mutatis mutandis (mudando o que se tem de mudar), viva a Música, viva
a Literatura... Vivificam, dão alento, embelezam o mundo, levam a doces e amargas
reflexões, sem contar que e atenuam a sordidez da existência... Talvez os
famosos versos do escritor romântico Francisco Otaviano traduzam, inteiramente,
o que se esconde no âmago da questão... Transcrevo-os.
Quem
passou pela vida em branca nuvem,
E
em plácido repouso adormeceu
Quem
não sofreu o frio da desgraça,
Quem
passou pela vida e não sofreu;
Foi
espectro de homem, não foi homem,
Só
passou pela vida, não viveu.
É
esse sofrimento existencial, essa dor pungente do viver que pede um lenimento,
algo suavizador das dores do mundo, que só se encontra na Arte...
Nesses
tempos de vazio existencial, de pregações farisaicas, provindas dos meios de
comunicação de massa, ou de pretensiosos acendedores de lampiões; nessa quadra
da História, em que violências de toda sorte terrificam o homem e são untadas
pelo verniz perigoso do discurso banalizador daqueles meios, encontramos, às
vezes, alguém que pode nos ajudar a suportar o peso drummondiano do mundo nos
ombros... Bastam as estripulias do acaso
ou uma boa dose de sorte.
Pois
não é que se deu isso comigo. Ocorreram, simultaneamente, as artes do acaso e o
tropeço na sorte. Encontrei um guru num dia em que “enxugava” eu algumas “marditas” louras geladas num botequim de
subúrbio. Naquele dia, saíra para preencher a melancolia dos domingos amarelos.
Sentei-me à mesa e uma garçonete de avental branco, cabelos pintados de amarelo
bandeira brasileira e lábios pintados que lembravam uma biquara, atendeu-me.
Enquanto na radiola de fichas rodavam a música que os intelectualóides chamam
de brega, espraiei o olhar pelo ambiente. Dois sujeitos discutiam futebol.
Encostado na parede encardida do boteco, um sujeito, mais “bêbado que uma cabra
vadia e abandonada num terreno baldio”, bela metáfora de Nélson Rodrigues,
tentava, na voz engrolada por dezenas de doses de cachaça, solfejar a música
que tocava impune e indiferente à sua presença. De vez em quando, ouvia-se o
dono do bar gritar à garçonete que atendesse essa ou aquela mesa. Num canto
solitário, um sujeito de aparência simples sorria e pendurava na ponta dos
lábios um sorriso de deboche como se estivesse se divertindo com as tolices do
mundo. Depois de algum tempo, a radiola começou a tocar uma musiquinha, não a
de romantismo ardido, traduzida na voz sofrida do intérprete, com cuja estética
muitos se identificam. Na verdade, a vozinha esganiçada e desgraciosa proferiu
alguns versos do mais fino mau gosto. Dizia a letra mais ou menos assim: “Oh!
my Love, oh, my Love, se você colocar seu amor na vitrine ele não vai valer
mais que um e noventa e nove”. Da minha parte, senti nos versos o suprassumo da
mediocridade. Comecei a rir sozinho. Verifiquei, então, que o sujeito metido a
gozador fez o mesmo, só que soltou estrondosa gargalhada. Só eu entendi o gesto
do homem. E, não sei por que cargas d´água, intuí, naquele momento, haver
esbarrado em alguém que segurasse, por algum tempo, uma boa conversa.
Com
efeito, entabulamos um longo papo e pude, desde então, sentir haver encontrado
um sábio, um homem de larga visão de mundo ( demonstrarei nos próximos
encontros), o qual filtra as acontecências por uma ótica bem distante do
mesmismo pescado dos meios de comunicação de massa e das falas oraculares,
massificadas e cansativamente repetidas pelos robôs da era do “cibervício.”
É
um guru, sem dúvidas... Não porta longas barbas. Não usa turbantes, não ensaia
voz de brasileiro aflautada com falso sotaque estrangeiro, tampouco escreve
livros de autoajuda... Também lhe passa longe a idéia de mudar os atos e cenas
do grande teatro da vida. Apenas, conforme pude entender, espreita o mundo e,
rendido à indiferença dos céticos, observa o fluir do tempo, as mudanças
heraclitianas e sobre elas não constrói esplendorosos juízos para impressionar
os rudes. Apenas filosofa, alheio a modismos estereotipados...
Para
concluir: diz chamar-se Ridendo Sic... Nome sugestivo, pois, pois... Daqui por
diante, não fugirei à obrigação de, por intermédio desta rede social e de um
blog em que garatujo textos, transcrever os ricos diálogos ou as historietas
tragicômicas que resultarem de nossas conversas... Por enquanto, só este
simulacro de apresentação...
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