PÁSCOA (uma questão semântica)
Hugo Martins
Nunca entendi o real sentido da
palavra Páscoa. Desde os tempos de menino, ouço falar que tem algo a ver com a
Semana Santa, esta que assinala os últimos dias de Jesus Cristo na terra, ou
lembra sua Paixão. À época, fora o
Galileu sacrificado pelo povo romano por haver cometido o delito da perturbação
da ordem pública. Esse assunto vem, de longo tempo, sendo tratado pelo cinema,
e hoje alguém já tira proveito econômico disso tudo, seja com encenações ao ar
livre, seja vendendo peixe, seja barateando, promocionalmente, o preço da carne
bovina. Quer dizer, pretende-se ver a Páscoa como uma festa santa e, no
entanto, o que se nos apresenta aos olhos é a sordidez e a ignomínia. Por isso,
teimo em não entender a Páscoa.
Lá fora, pululam o ódio, o medo e a
intranqüilidade. As estradas estão apinhadas de carros que buscam praias e
serras. No mercado de notícias, as manchetes de jornais sangram fatos
escabrosos, estampam crimes hediondos e a torpeza de homens sem escrúpulos, que
vendem a alma por menos de trinta moedas. Nas igrejas, fiéis oram, implorando o
perdão divino. Outros, entoando uma cantilena monocórdia, caminham horas e
horas a pedir, de casa em casa, esmolas para o desjejum. Logo após, dirigem-se
aos cemitérios, onde se autoflagelam, lanhando as costas com chicotes, em cujas
pontas atam-se objetos cortantes. No movimento rítmico do braço, chagam as
costas numa atitude de quem pede perdão a Deus pelos erros e pecados cometidos
na vida terrena.
Continuo não entendendo a Páscoa.
Enquanto isso, o Cristo se apresenta
diariamente aos olhos de todos, que o olham com indiferença e desdém. Sua
presença não agrada. Querem vê-lo de vestes longas, lavadas com sabão Omo; com
os cabelos sedosos pela ação protetora de novo “shampoo” (xampu é melhor, é bom
vernáculo, mas não é chique) chegado ao mercado da cosmética; com a barba
aparada na chiqueza de algum salão de beleza de renome na região palestina. Ele
insiste em aparecer, mas é crucificado. Momentos há em que se encontra em
semáforos, com uma flanela na mão, enxugando, tal qual Verônica, o pára-brisas
de automóveis em que seus fiéis se protegem. Outras vezes, em becos escuros e
fétidos, nas praças públicas e portas de igreja, cheira cola para amenizar o
sofrimento e suportar a dor e a crueza do indiferentismo em volta. Pode estar até
mesmo encarnado em meninas, mal saídas da infância, que, por razões nada
cristãs, vendem o corpo por mais ou por menos de trinta moedas. Ele insiste em
aparecer, mas é sempre crucificado.
Agora, começo a entender mais um pouco a
Páscoa!
Em torno a mesas fartas, em que se
compartilha a ceia pascal, homens pios comem a não mais se fartar, palitam os
dentes e ruminam orações para que suas consciências nunca enxerguem o Cristo
que a eles se revela toda vez que abrem suas janelas para a vida lá fora.
É. Entender a Páscoa é coisa meio
complicada.
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