segunda-feira, 16 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (20)

                                                           Hugo Martins



               Não se recebia ainda o humor pronto e veiculado pela indústria cultural com bordões, que, de tão repetitivos, perdem a graça e caem no lugar comum. Se o anedotário perdeu seu encanto e frescor por força da mesmice psitacista de melancólicos e-mails, naquele tempo, as piadas e historietas de cunho humorístico surgiam em mesas de bar e em praças públicas, nascidas da sabedoria popular, arrancadas dessa natural vocação do homem do povo para fazer blague com a condição humana. Eram repassadas pela boca do povo, que, a cada conto, colocava um ponto.

          Havia um juiz numa cidadezinha do interior cearense, que provocava risos aos outros não por ser detentor de veia humorística, mas pela presença de espírito observador e pela seriedade que imprimia às palavras que proferia em dadas situações em que alguém permitia uma deixa.

          Certa ocasião, hospedado numa pensão, à hora do jantar, pediu à dona casa de pasto dois ovos fritos. A cozinheira, depois de prepará-los, perguntou ao magistrado: “Doutor, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que aquele respondeu: “Não, minha senhora, uso Talco Ross.”  

            Doutra feita, sentados em um banco de madeira na antiga Praça do Ferreira, vários homens de abauladas barrigas e largas ancas conversavam sobre bancos e finanças. Em pé, ouvia a conversa o advogado Quintinho Cunha, cuja verve é bem conhecida do povo cearense. De repente, o velho banco se parte ao meio, levando ao chão todos os seus ocupantes. Dizem que o velho causídico olhou-os e disse: “A vida é mesmo cheia de contradições. É a primeira vez que vejo um banco quebrar por excessos de fundos”.

          Corriam à boca pequena muitos episódios cotidianos sobre aquele advogado. Criminalista, homem de tribuna e de raciocínio zombeteiro, não perdoava quem se metesse a besta, tentando atingir-lhe o zelo profissional. Um dia, por força da calosidade que o atormentava, foi ao Tribunal do Júri com os indefectíveis terno e gravata e trazendo nos pés largos chinelos. No calor do debate, o promotor de justiça encurralado na tese sustentada por Quintino, tentando encontrar uma saída, pensou haver dado uma tacada no experiente advogado, ajuntando: “Doutor Quintinho, o senhor insulta a lei com os pés.” Impassível, o causídico cearense rebateu: “E Vossa Excelência, com a cabeça.” O juiz vibrou várias vezes o martelo para conter a risadaria vinda da assistência.

          Existem muitas histórias no folclore do futebol cearense em que o humor exsurge da ingenuidade atribuída ao jogador daquele tempo. Conta-se que um deles, ao final da partida, indagado pelo repórter o que ele tinha achado do jogo, teria respondido: “Olhe, eu não achei nada, mas um colega meu, quando foi bater um escanteio, achou um cordão de ouro próximo à bandeirinha...” Esse mesmo jogador participava de um embate envolvendo o time do Fortaleza e a seleção da cidade de Juazeiro do Norte, por ocasião da festa dos cinquenta anos dessa cidade. Ao fim do jogo, um repórter perguntou-lhe o que tinha a dizer sobre a partida. Assim respondeu: “Achei legal mesmo e espero, no próximo cinquentenário, estar aqui de novo com nosso time, jogando e participando dessa data tão bonita...” Não se sabe se na resposta do jogador havia um quê de inocência ou fingimento poético...

          Naquele tempo o humor era assim: espirituosidade, rapidez de raciocínio e falsa singeleza. Todos gratuitos.

          Bons tempos aqueles.  

         

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