terça-feira, 10 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (17)

                                                           Hugo Martins

          Aos domingos, as partidas de futebol no velho estádio Presidente Vargas levavam o povo a ver os times locais sem temer a violência das torcidas ou, após o certame, os atos predatórios ao patrimônio público. Os atletas eram da própria terra e, se tinham algum talento, eram admirados e não heroificados. No máximo, suas jogadas e malabarismos serviam de pasto para as conversas no Abrigo Central, ali na Praça do Ferreira, na lanchonete do Pedão da Bananada. Aqui também se tomava conhecimento das lutas de vale-tudo na Fênix Caixeiral, cujos maiores astros eram Teógenes, halterofilista que lembrava o Tarzan de Edgar Rice Burroughs; Tamiarana, negro alto, de musculatura exageradamente proeminente; e Pinheirão, um militar da Aeronáutica, que mais parecia uma das caixas d´água da antiga Praça da Bandeira, tal era sua figura alta e larga.

          Naquele tempo, havia jogadores que, descompromissados, praticavam seu futebol limpo, cheio de gingas, meneios e volteios... Não esperavam nenhum pódio ou louros transitórios. Tinham como juiz a torcida, não davam cartaz a cartolas e empresários parasitas e sugadores de talentos. Um deles, pela elegância da cabeça erguida e pela lealdade com que marcava o oponente, recebia o apodo de Príncipe. Era Damasceno, um centro-médio que passou pelos grandes times locais, homenageado por Pelé, quando, tomando a bola deste, enfiou a redonda por meio das canetas e saiu indiferente à fama de que gozava aquele outro infernal jogador. Havia no time do Ferroviário um baixinho, pouco mais de um metro e meio, cuja habilidade com a perna esquerda e visão de jogo, nunca perdeu uma convocação para a seleção local. Era Aldo, um trabalhador da estrada de ferro, que dedicou fidelidade por longos anos à torcida do Ferrim. Havia também um ponta-esquerda do Fortaleza, vindo de Limoeiro do Norte. Impressionava pela potência do chute. Era comum, após a batida do centro, entregar-se a ele a bola que, do meio do campo soltava sua patada em direção ao gol adversário. Raras eram as vezes que bola tomava caminho diferente das traves, para o alívio dos goleiros, que, de regra, vendo a pelota em sua direção, “batiam roupa” como se aquela esfera fosse uma bola de fogo semelhante a um cometa incandescente. Ninguém tinha a potência no chute como BCC. No time do Ceará, a agilidade do goleiro Aluísio Linhares valeu-lhe o apelido Caravele pelos vôos em direção à bola que ia em busca do ângulo da trave. Era uma analogia, pois, no time do América do Rio de Janeiro, o goleiro Pompéia recebera o apodo de Constelation quando alçava seus vôos para agarrar bolas altas e impossíveis. Constelation e Caravele eram aeronaves da época.

          Naquele tempo, jogava-se o bom futebol pelo futebol, com a mesma gratuidade a-útil de quem ama fazer e contemplar as Belas-Artes. Como ocorria com Harry Carey, goleiro do time do Ceará Sporting, que, para os entendidos, jogaria em qualquer time do mundo sem nada dever a ninguém.

          Também, aos domingos, quem não gostasse de futebol, buscava divertimento nos programas de rádio, patrocinados pelos produtos da fábrica Siqueira Gurgel. Calouros que cantassem ou respondessem questões variadas de vocabulário ou fatos históricos eram agraciados com barras de sabão Pavão, sabonete Singel ou latas de óleo Pajeú ou Paturi. A animação ficava por conta de José Lisboa e Peixoto de Alencar...

          Na manhã de domingo, acompanhava-se a Parada dos Maiorais, sob a batuta do locutor Wilson Machado, na Rádio Dragão do Mar. Antes de cada “página musical”, o vozeirão de Wilson Machado declarava seu amor à “loira desposada do sol, que dorme á sombra dos palmares”, chamando-a, nasalizando cada vogal, de Fortaleza do meu “cheineinein”. Ouvia-se Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Emilinha Borba, Altemar Dutra, Nat King Cole e toda uma casta de cantores que “tinham voz” e embalavam o coração das gentes com letras em que a poesia legítima se derramava em inventividade e metaforizações de luz e encantamento. A vulgarização era moeda que não se contava. Depois, era ir nadar na piscininha da praia de Iracema...

          Bons tempos aqueles.



           

         



         


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