NAQUELE
TEMPO (15)
Hugo
Martins
Nas cidades e vilas do interior, quando não havia um doido
oficial para servir de bode expiatório às neuroses de todos, o povo alegrava
seu sadismo com a figura do contador de histórias escabrosas, cujo conteúdo
fazia rir até mesmo um frade de pedra.
Numa dessas cidadezinhas, muito se ouviam histórias de um
senhor de nome Pedro Faz Tudo. De porte esgrouvinhado, sempre vestido com
largas calças e camisas de manga longa de mescla, Seu Pedro trazia o ar fechado,
acentuado pela boca, de lábios finos e tensos, emoldurada por largos bigodes
brancos. Olhos encimados por espessas sobrancelhas, cabelos ralos e grisalhos,
que um chapéu amolgado e manchado por muitos anos de suor cobria, o homem
ostentava o semblante, a um tempo,
tristonho e engraçado do Quixote de Cervantes.
Costumava pontificar no meio da pracinha. As pessoas se
achegavam, davam um boa-noite respeitoso e ficavam à espera de que o rapsodo
matuto abrisse o baú de “causos”. Em todas as narrativas, seu Pedro figurava
como uma espécie de Malazarte, saindo-se heroicamente das situações as mais
desafiadoras. Enquanto desfilava as odisséias, a assistência mantinha-se calada
e atenta, embora alguns, às escondidas, pusessem na boca as mãos enconchadas
para impedir a explosão da gargalhada, ante as incorrigíveis mistificações do
mitômano.
De repente, alguém sugeriu que Seu Pedro contasse aquele
caso da chuva. O velho não se arreliou, temperou a garganta, deu um longo trago
no cigarro pé-duro, não se fez de rogado e abriu as comportas da imaginação.
“Em certa ocasião, longe de minha casa coisa de sete
quilômetros, o baiozinho trotando, trazia eu na garupa meu filho Esaú. De
repente, o céu começou a escurecer. Olhei para trás e vi que o diabo da chuva
nos ia deixar ensopados. Esporeei o castanho, meti-lhe o chicote sem dó e nem
piedade, e o cavalo saiu em alta disparada. Esauzinho segurou-me a cintura,
cingiu-se mais ao meu corpo e disse: “arrocha, pai, que a chuva vem com todos os
seiscentos diabos, ela vai nos pegar”. Achei aquilo um desaforo e mandei o aço
nos lombos do cavalinho, que empinava as orelhas e parecia nem tocar no chão.
Naquele pega-não-pega, pega-não-pega, esbarrei embaixo do alpendre lá de casa,
quando o chuveirão passou.”
Alguém, para verificar a veracidade da história, indagou:
- Seu Pedro, e o senhor não se molhou?
O velho olhou para o incrédulo e disse.
- Só lamentei ver Esauzinho e a garupa do bicho encharcados
pela maldita chuva... Mas é isso mesmo...
Em seguida, pediram que Pedro Faz Tudo contasse aquela
história da caçada. Ele não titubeou. Acabou de enrolar o pé-duro e, entre uma
tragada e outra, desfiou o novelo da aventura.
“Certa feita, saímos a caçar marrecos eu e meu Esauzinho.
Não atirava nas aves. Preferia fazer fogo por sobre a cabeça delas, que, ante o
susto, desmaiavam, e Esaú amarrava-lhes as pernas e pendurava-as numa embira de
carnaúba que trazia amarrada à cintura. Depois que meu filho metera na embira
mais de cinqüenta marrecos, dei o último tiro e, quando me virei para Esaú,
qual o que, gritava lá do alto, pois as aves, quando despertaram do desmaio,
alçaram todas em vôo. Meu filho não se desesperou e ouviu meu conselho que
quebrasse paulatinamente o pescoço de cada um dos pássaros. Assim ele fez...
Quando cheguei em casa, meu filho ia aterrissando no quintal” (!).
Embora grande fosse a insistência, o velho Pedro achou
melhor ir para casa. A noite já ia alta... Noutro dia ele contaria a história
da agulha que ele enxergara na estrada de rodagem quando, a bordo de um
automóvel em alta velocidade, olhou para o asfalto. Só não desceu porque outro
filho seu dissera-lhe que a agulha era sem fundo...
Eita, que bons tempos aqueles!!
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