quarta-feira, 4 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (15)

                                                                        Hugo Martins

          Nas cidades e vilas do interior, quando não havia um doido oficial para servir de bode expiatório às neuroses de todos, o povo alegrava seu sadismo com a figura do contador de histórias escabrosas, cujo conteúdo fazia rir até mesmo um frade de pedra.

          Numa dessas cidadezinhas, muito se ouviam histórias de um senhor de nome Pedro Faz Tudo. De porte esgrouvinhado, sempre vestido com largas calças e camisas de manga longa de mescla, Seu Pedro trazia o ar fechado, acentuado pela boca, de lábios finos e tensos, emoldurada por largos bigodes brancos. Olhos encimados por espessas sobrancelhas, cabelos ralos e grisalhos, que um chapéu amolgado e manchado por muitos anos de suor cobria, o homem ostentava o semblante, a um tempo,  tristonho e engraçado do Quixote de Cervantes. 

          Costumava pontificar no meio da pracinha. As pessoas se achegavam, davam um boa-noite respeitoso e ficavam à espera de que o rapsodo matuto abrisse o baú de “causos”. Em todas as narrativas, seu Pedro figurava como uma espécie de Malazarte, saindo-se heroicamente das situações as mais desafiadoras. Enquanto desfilava as odisséias, a assistência mantinha-se calada e atenta, embora alguns, às escondidas, pusessem na boca as mãos enconchadas para impedir a explosão da gargalhada, ante as incorrigíveis mistificações do mitômano.

          De repente, alguém sugeriu que Seu Pedro contasse aquele caso da chuva. O velho não se arreliou, temperou a garganta, deu um longo trago no cigarro pé-duro, não se fez de rogado e abriu as comportas da imaginação.

          “Em certa ocasião, longe de minha casa coisa de sete quilômetros, o baiozinho trotando, trazia eu na garupa meu filho Esaú. De repente, o céu começou a escurecer. Olhei para trás e vi que o diabo da chuva nos ia deixar ensopados. Esporeei o castanho, meti-lhe o chicote sem dó e nem piedade, e o cavalo saiu em alta disparada. Esauzinho segurou-me a cintura, cingiu-se mais ao meu corpo e disse: “arrocha, pai, que a chuva vem com todos os seiscentos diabos, ela vai nos pegar”. Achei aquilo um desaforo e mandei o aço nos lombos do cavalinho, que empinava as orelhas e parecia nem tocar no chão. Naquele pega-não-pega, pega-não-pega, esbarrei embaixo do alpendre lá de casa, quando o chuveirão passou.”

          Alguém, para verificar a veracidade da história, indagou:

          - Seu Pedro, e o senhor não se molhou?

          O velho olhou para o incrédulo e disse.

          - Só lamentei ver Esauzinho e a garupa do bicho encharcados pela maldita chuva... Mas é isso mesmo...

          Em seguida, pediram que Pedro Faz Tudo contasse aquela história da caçada. Ele não titubeou. Acabou de enrolar o pé-duro e, entre uma tragada e outra, desfiou o novelo da aventura.

          “Certa feita, saímos a caçar marrecos eu e meu Esauzinho. Não atirava nas aves. Preferia fazer fogo por sobre a cabeça delas, que, ante o susto, desmaiavam, e Esaú amarrava-lhes as pernas e pendurava-as numa embira de carnaúba que trazia amarrada à cintura. Depois que meu filho metera na embira mais de cinqüenta marrecos, dei o último tiro e, quando me virei para Esaú, qual o que, gritava lá do alto, pois as aves, quando despertaram do desmaio, alçaram todas em vôo. Meu filho não se desesperou e ouviu meu conselho que quebrasse paulatinamente o pescoço de cada um dos pássaros. Assim ele fez... Quando cheguei em casa, meu filho ia aterrissando no quintal” (!).

          Embora grande fosse a insistência, o velho Pedro achou melhor ir para casa. A noite já ia alta... Noutro dia ele contaria a história da agulha que ele enxergara na estrada de rodagem quando, a bordo de um automóvel em alta velocidade, olhou para o asfalto. Só não desceu porque outro filho seu dissera-lhe que a agulha era sem fundo...

          Eita, que bons tempos aqueles!!

         

         

         

Nenhum comentário:

Postar um comentário