domingo, 22 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (22)

                                                       Hugo Martins



            Falava-se pouco em comportamento ético, mas havia nas intenções propósitos nobres e atitudes honestas. Se hoje parece ser natural o ato de embolsar o troco a mais que alguém, inadvertidamente, repassa para o outro, naquele tempo, viam-se exemplos edificantes que robusteciam a alma e atestavam a certeza de que o agir com honestidade e lealdade é sempre muito bom.

            Existia um advogado, cujo comportamento, em qualquer situação, era modelar e dignificante. Trata-se do doutor Heráclito Fontoura Sobral Pinto. Dele contam-se histórias comoventes pelo teor humanizante que delas trescalavam. Diz-se que, mesmo sendo, no plano político-ideológico, inimigo de Luís Carlos Prestes, dispôs-se a patrocinar-lhe a defesa em tribunais corruptos, que ninguém ousava enfrentar. Ao ver o estado desonroso em que se encontrava na prisão o Cavaleiro da Esperança, dirigiu-se ao Estado brasileiro, pedindo-lhe que, se não existia uma lei para proteger aquele homem, se lhe aplicasse, pelo menos, a Lei de Proteção aos Animais... Isso é bondade gratuita.

            Conta-se que, certa feita, fora contratado por uma grande empresa para resolver uma pendenga de natureza civil. Os honorários advocatícios ficaram acertados: oitenta contos de réis. Findo o certame, o causídico saíra vencedor. Quando se dirigiu ao banco a fim de sacar seus honorários, estava depositada em sua conta a quantia de quatrocentos contos de réis. O velho advogado indagou do gerente que dinheiro era aquele que excedia os oitenta contos de réis. O gerente respondeu tratar-se de verba honorária depositada pela empresa. Sobral Pinto, então, disse que aquele dinheiro não lhe pertencia uma vez que o contrato não falava em quatrocentos de réis e mandou o gerente devolver os trezentos e vinte contos de réis ao empresário... A historieta lembra o filósofo existencialista francês que, agraciado com o Prêmio Nobel, dirigiu-se à Academia Sueca, manifestando sua recusa em receber tal comenda. Lá não pisou, tampouco recebeu o dinheiro. Isso é honra, coragem, desprendimento e liberdade... Não deve estarrecer.

            Nos estados autoritários, a primeira coisa que os ditadores cuidam de promover é a cassa (por que não caça, também?) aos direitos, entre eles o de ser ouvido... Certa ocasião, Sobral Pinto foi defender um preso político, a quem o Estado brasileiro negava aquele sublime direito. Homem corajoso, fiel ao princípio jurídico do respeito à dignidade humana, além de fortemente guindado para os princípios basilares da filosofia cristã, em defesa de seu constituinte, saiu-se com essa pérola de raciocínio, não aspeado por não se tratar de transcrição literal:

            Meus senhores, Deus, em sua onipotência, onipresença e suma bondade, mesmo sabendo da hediondez do crime que Caim cometera contra seu irmão Abel, a ele concedeu o direito de ser ouvido, quando àquele perguntou: “Caim, que fizeste a teu irmão? Se Deus assim fez, por que meu constituinte tem cerceado o mesmo direito que o próprio Deus reconheceu?” Isso é beleza, é paixão, é conhecimento, é destemor, é amor ao próximo.

            Naquele tempo, os corações se alegravam com os homens de boa vontade, estudava-se, pensava-se e havia no ar uma forte propensão para a sinceridade e lealdade, valores que dignificam e engrandecem. Naquele tempo, doutor era o que pensava e colocava seu conhecimento a serviço do próximo. Não consta fosse Sobral Pinto doutor nisso ou naquilo, a não ser bacharel em Direito. O jogo das titulações ainda não dera sua cara. Parece que a ele o autodidatismo era suficiente. Não podia se render aos apelos cerebrinos da política educacional, vendedora da ilusão de que esse ou aquele título legitimasse a competência de fulanos e beltranos...  Afinal, não era ele servidor público...  

            Bons tempos seriam aqueles, hoje...

           

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