NAQUELE
TEMPO (22)
Hugo Martins
Falava-se pouco em comportamento
ético, mas havia nas intenções propósitos nobres e atitudes honestas. Se hoje
parece ser natural o ato de embolsar o troco a mais que alguém,
inadvertidamente, repassa para o outro, naquele tempo, viam-se exemplos
edificantes que robusteciam a alma e atestavam a certeza de que o agir com
honestidade e lealdade é sempre muito bom.
Existia um advogado, cujo
comportamento, em qualquer situação, era modelar e dignificante. Trata-se do
doutor Heráclito Fontoura Sobral Pinto. Dele contam-se histórias comoventes
pelo teor humanizante que delas trescalavam. Diz-se que, mesmo sendo, no plano
político-ideológico, inimigo de Luís Carlos Prestes, dispôs-se a patrocinar-lhe
a defesa em tribunais corruptos, que ninguém ousava enfrentar. Ao ver o estado
desonroso em que se encontrava na prisão o Cavaleiro da Esperança, dirigiu-se
ao Estado brasileiro, pedindo-lhe que, se não existia uma lei para proteger
aquele homem, se lhe aplicasse, pelo menos, a Lei de Proteção aos Animais...
Isso é bondade gratuita.
Conta-se que, certa feita, fora
contratado por uma grande empresa para resolver uma pendenga de natureza civil.
Os honorários advocatícios ficaram acertados: oitenta contos de réis. Findo o
certame, o causídico saíra vencedor. Quando se dirigiu ao banco a fim de sacar
seus honorários, estava depositada em sua conta a quantia de quatrocentos
contos de réis. O velho advogado indagou do gerente que dinheiro era aquele que
excedia os oitenta contos de réis. O gerente respondeu tratar-se de verba
honorária depositada pela empresa. Sobral Pinto, então, disse que aquele
dinheiro não lhe pertencia uma vez que o contrato não falava em quatrocentos de
réis e mandou o gerente devolver os trezentos e vinte contos de réis ao
empresário... A historieta lembra o filósofo existencialista francês que,
agraciado com o Prêmio Nobel, dirigiu-se à Academia Sueca, manifestando sua
recusa em receber tal comenda. Lá não pisou, tampouco recebeu o dinheiro. Isso
é honra, coragem, desprendimento e liberdade... Não deve estarrecer.
Nos estados autoritários, a primeira
coisa que os ditadores cuidam de promover é a cassa (por que não caça, também?)
aos direitos, entre eles o de ser ouvido... Certa ocasião, Sobral Pinto foi
defender um preso político, a quem o Estado brasileiro negava aquele sublime
direito. Homem corajoso, fiel ao princípio jurídico do respeito à dignidade
humana, além de fortemente guindado para os princípios basilares da filosofia
cristã, em defesa de seu constituinte, saiu-se com essa pérola de raciocínio,
não aspeado por não se tratar de transcrição literal:
Meus senhores, Deus, em sua
onipotência, onipresença e suma bondade, mesmo sabendo da hediondez do crime
que Caim cometera contra seu irmão Abel, a ele concedeu o direito de ser
ouvido, quando àquele perguntou: “Caim, que fizeste a teu irmão? Se Deus assim
fez, por que meu constituinte tem cerceado o mesmo direito que o próprio Deus
reconheceu?” Isso é beleza, é paixão, é conhecimento, é destemor, é amor ao
próximo.
Naquele tempo, os corações se
alegravam com os homens de boa vontade, estudava-se, pensava-se e havia no ar
uma forte propensão para a sinceridade e lealdade, valores que dignificam e
engrandecem. Naquele tempo, doutor era o que pensava e colocava seu
conhecimento a serviço do próximo. Não consta fosse Sobral Pinto doutor nisso
ou naquilo, a não ser bacharel em Direito. O jogo das titulações ainda não dera
sua cara. Parece que a ele o autodidatismo era suficiente. Não podia se render
aos apelos cerebrinos da política educacional, vendedora da ilusão de que esse
ou aquele título legitimasse a competência de fulanos e beltranos... Afinal, não era ele servidor público...
Bons tempos seriam aqueles, hoje...
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