quinta-feira, 12 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (19)

                                            Hugo Martins



            Quando se viajava pelas maltratadas rodovias brasileiras, era comum avistarem-se, em pára-choques de velhos caminhões ronceiros e roncadores, frases de todo jaez, cujo conteúdo portava uma filosofia de vida. Daí a variedade de tonalidades temáticas, que, se não levavam à reflexão, provocavam laivos de risos. Havia os de feição poética, que ostentavam jogo metafórico e metonímico: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração”. Outros traziam à baila advertências filosóficas: “O sol nasce para todos; a sombra, para quem merece.” Muitas vezes, a desconfiança do amor mundano e a inquestionabilidade do amor materno traduziam-se por uma certeza inabalável: “Amor só de mãe.” Alguns caminhões traziam estampados nos pára-lamas desenhos maliciosos, sob os quais se liam palavras de gosto maroto e galhofeiro.  Num deles, uma mulher retém a cauda retesa de um touro raivoso, enquanto um homem sustenta os chifres pontiagudos do quadrúpede. Completando o desenho, a legenda: “Se ela soltar o rabo, ele leva chifre.” Alguns jogavam com as possibilidades poéticas da linguagem: “Olhe para a mulher dos outros, mas mantenha a sua direita.”

            Naquele tempo, as bodegas e mercearias também punham à vista dos fregueses sentenças que visavam afugentar a velhacaria dos maus pagadores. Encimando as velhas prateleiras em que se enfileiravam garrafas de cachaça Bagageira, Pé de Tonel ou Vovó Extra, podia-se ler: “Fiado só a maiores de oitenta anos, acompanhados dos pais”, ou, então: “Fiado só no dia 31 de fevereiro.” Alguns pequenos comerciantes mais criativos mandavam desenhar um quadro em que se via, no primeiro plano, um homem de ar tristonho e desencantado, segurando um chapéu de palha surrado, a barba por fazer, olhando as prateleiras vazias do estabelecimento. Sob sua figura, a frase “Eu vendia fiado.” No segundo plano, um burguês gordo, careca e risonho, com ar de prosperidade e em meio ao rebuliço de empregados arrumando mercadorias, contava dinheiro. Por sob o desenho, a sentença “Eu nunca vendo fiado.” Para o velhaco mais bem intencionado, não bastavam meias palavras...

            Por vezes, ao invés de repelir fregueses mal pagadores, o bodegueiro recorria a uma advertência. Tal um estóico redivivo, pendurava na parede o desenho de uma caveira, trespassada por duas tíbias em forma de xis, com a frase; “Eu fui o que tu eras e tu serás o que eu sou”. Alguns donos de bar preferiam brincar com o idioma e mantinham no estabelecimento frases como estas: “È proibido entrar bêbado; sair pode.”

            Era assim que transpirava a sabedoria do povo, derramada em chistes e galhofas que dão bem a medida do espírito brincalhão dos homens daquele tempo.

            Bons tempos aquele.


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