NAQUELE
TEMPO (19)
Hugo
Martins
Quando se viajava pelas maltratadas rodovias brasileiras,
era comum avistarem-se, em pára-choques de velhos caminhões ronceiros e
roncadores, frases de todo jaez, cujo conteúdo portava uma filosofia de vida.
Daí a variedade de tonalidades temáticas, que, se não levavam à reflexão,
provocavam laivos de risos. Havia os de feição poética, que ostentavam jogo
metafórico e metonímico: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração”. Outros
traziam à baila advertências filosóficas: “O sol nasce para todos; a sombra,
para quem merece.” Muitas vezes, a desconfiança do amor mundano e a
inquestionabilidade do amor materno traduziam-se por uma certeza inabalável:
“Amor só de mãe.” Alguns caminhões traziam estampados nos pára-lamas desenhos
maliciosos, sob os quais se liam palavras de gosto maroto e galhofeiro. Num deles, uma mulher retém a cauda retesa de
um touro raivoso, enquanto um homem sustenta os chifres pontiagudos do
quadrúpede. Completando o desenho, a legenda: “Se ela soltar o rabo, ele leva
chifre.” Alguns jogavam com as possibilidades poéticas da linguagem: “Olhe para
a mulher dos outros, mas mantenha a sua direita.”
Naquele tempo, as bodegas e mercearias também punham à
vista dos fregueses sentenças que visavam afugentar a velhacaria dos maus
pagadores. Encimando as velhas prateleiras em que se enfileiravam garrafas de
cachaça Bagageira, Pé de Tonel ou Vovó Extra, podia-se ler: “Fiado só a maiores
de oitenta anos, acompanhados dos pais”, ou, então: “Fiado só no dia 31 de
fevereiro.” Alguns pequenos comerciantes mais criativos mandavam desenhar um
quadro em que se via, no primeiro plano, um homem de ar tristonho e
desencantado, segurando um chapéu de palha surrado, a barba por fazer, olhando
as prateleiras vazias do estabelecimento. Sob sua figura, a frase “Eu vendia
fiado.” No segundo plano, um burguês gordo, careca e risonho, com ar de
prosperidade e em meio ao rebuliço de empregados arrumando mercadorias, contava
dinheiro. Por sob o desenho, a sentença “Eu nunca vendo fiado.” Para o velhaco
mais bem intencionado, não bastavam meias palavras...
Por vezes, ao invés de repelir fregueses mal pagadores, o
bodegueiro recorria a uma advertência. Tal um estóico redivivo, pendurava na
parede o desenho de uma caveira, trespassada por duas tíbias em forma de xis,
com a frase; “Eu fui o que tu eras e tu serás o que eu sou”. Alguns donos de
bar preferiam brincar com o idioma e mantinham no estabelecimento frases como
estas: “È proibido entrar bêbado; sair pode.”
Era assim que transpirava a sabedoria do povo, derramada
em chistes e galhofas que dão bem a medida do espírito brincalhão dos homens
daquele tempo.
Bons tempos aquele.
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