terça-feira, 3 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (14)

                                                                  Hugo Martins

          A chegada do circo na cidade era uma festa. No finzinho da tarde, via-se um palhaço montado num jegue, de gramofone na mão, seguido de um renque desordenado de meninos. O palhaço gritava: “Hoje tem espetáculo?” A molecada respondia em coro: “Tem, sim, senhor!” O palhaço bradava: “Às sete horas da noite?” O magote de guris: “Tem, sim, senhor!” O palhaço desfechava: “Então, arrocha, negrada!” Soava um grito em uníssono semelhante a um grito de guerreiros tomados por esfuziante entusiasmo: iuuuuuuuuuuurrôôôôô. Depois desse sucessivo e hilário ritual publicitário, cada um recebia no braço um carimbo, que lhe dava o direito de entrar no circo sem pagar.

          O circo, de regra, não tinha a lona superior. Caso chovesse, não aconteceria o espetáculo. Muitas vezes, os meninos burlavam a vigilância e passavam por sob a empanada que o circundava. Sentavam-se nas arquibancadas de madeira, que rangia sob o peso daquela multidão, ávida por assistir aos dramas ou divertir-se com as histórias fesceninas e as quedas desastrosas dos palhaços. Estes eram os grandes atrativos do circo. Encenavam episódios como se estivessem no palco dos grandes teatros. O humor era franco e sincero; as piadas e cenas serviam de pasto para comentários nas feiras e praças. Naquele tempo, não se fabricavam humoristas em série, que carregam a cada programa televisivo o mesmo bordão sem graça. Não. Muitas vezes, nos circos, valia a capacidade de improviso daqueles profissionais, que, em muito, assemelhavam-se ao personagem encarnado por Charles Chaplin no filme Luzes da Ribalta. Tinha talento de sobra, fazia arte pura, mas estava velho e, portanto, sem nenhum préstimo. Os profissionais de circo, sobretudo os palhaços, não podem ser comparados aos humoristas de laboratório de hoje, cujo humor é desgracioso, repetitivo e só visa a vender algum produto ou alguma ideologia da indústria cultural.

          Além dos palhaços, o público assistia a dramas melosos, cujo tema era o amor frustrado ou os infortúnios e armadilhas do destino. Uma das peças muito a gosto do público era a história de Gilda de Abreu, o Ébrio, que narrava a decadência de um homem, que se entregara ao vício do álcool em decorrência de fracassos amorosos e a perda de uma filha, a quem muito amava, e o abandono dos amigos. Finda a apresentação, quando se cantava a música de mesmo nome, corriam rios de lágrimas e ouviam-se lamentações em face da maldade humana. O clima choroso mais se exacerbava,quando o personagem principal cantava a música Porta Aberta, em que, esfarrapado, olhos intumescidos e a barba por fazer, agradecia por haver Deus escancarado as portas do céu para ele, “acolhendo-o em seu sagrado manto”. Ali ele encontrou a paz e a tranqüilidade, que perdera na terra.

          Em outras tardes, a moçada ia ao circo para ver uma bela jovem. Era a pequena espanhola Sandileusa Garrido. De corpo esbelto, seios pontudos, traseiro arrebitado, vestida numa roupa colada de trapezista, que deixava adivinhar curvas e reentrâncias, lembrava em tudo a ninfeta pintada por Vladimir Nabokov no romance Lolita. Os meneios lascivos do corpo de sílfide, os olhos esverdeados de tigresa indômita e os cabelos se espraiando em ondas acordavam a libido, também indomada, dos meninos. Em silêncio, como que hipnotizados, olhavam-na a saracotear no trapézio e, em seguida, a fazer volteios de serpente numa corda, de onde descia, ao fim do número, para executar, num afinado pistom, canções que evocavam as touradas de Espanha. Era a apoteose estonteante da diva em flor, a despertar fantasias e encantamentos naquelas almas de imaginação infrene...

          Por fim, entrava um palhaço de ar misto de ingenuidade com malícia e iniciava uma série de anedotas picantes. Havia dias, depois de repetidas tentativas, quando não surdia da platéia nenhum sinal de riso, o palhaço punha os dois polegares no suspensório das largas calças, esticava-os para frente, baixava a vista como a procurar alguma coisa ali dentro e soltava um grito superlativamente exclamativo:

          - É a pequeeeeeeeeeena!!!!!!!!!

          As gargalhadas ecoavam muito além da lona enodoada e encardida do pobre circo, que tanto sonho e alegria levava àquela gente.

          Bons tempos aqueles.

         

           

         

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