NAQUELE
TEMPO (21)
Hugo Martins
O apelido vinha do mau odor que seu corpo
exalava. Chamava-se Saruê. Cabelos ralos e em desalinho, olhar cansado por
noites indormidas, seu rosto parecia padecer de eterno inchamento, provocado,
certamente, pelo vício de virar copos e copos de cachaça todo dia e o dia todo.
As calças compridas eram amarradas nas virilhas por um cinturão velho e largo, que
acentuava a pança abaulada. Pés descalços, tropegava e só caía quando bem
queria.
Quando não se esparramava nas esquinas
de calçadas, curtindo a embriaguez, cambaleava pelas ruas a dizer pilhérias e
gracejos, sem nunca escorregar na indelicadeza dos palavrões e de expressões
que recendessem à pornografia grosseira e deselegante. Notava-se no semblante
certa aura de homem experimentado nas filosofias da vida... Desencantado com
esta, parecia fazer-lhe blague. Se algumas pessoas o temiam pela língua
viperina, que espalhava o açoite às almas pequenas; outras, mais sensatas,
respeitavam-no pelo largo tirocínio, que enxergava de longe a desfaçatez e o
fingimento próprio de alguns exemplares humanos.
Naquele tempo, o voto dos cidadãos não
tinha valor algum. Escolhiam-se administradores e legisladores pela força,
poder e batuta de políticos, que ganhavam eleições pela intervenção autoritária
dos coronéis da Guarda Nacional, espécies de sátrapas dos tempos de então.
Embora nos tempos hodiernos a História tenha mudado de roupa, naquele tempo, a
falta de vergonha era indumentária que cobria com mais eficácia a alma suja dos
versados na arte de furtar e de enganar.
Certa ocasião, deitado no alpendre da
casa de um coronelão, Saruê, ferrado em sono solto, foi despertado pelo
converseiro de vários políticos de língua solta e retórica oca. Aqui e ali,
ouvia a voz de reformadores, homens que demonstravam (que coisa repetida!!), na
pujança de suas falas, o desejo patriótico de reformar o país, acrescentando
ser chegada a hora de encontrar opções de melhoria para o povo e outras
baboseiras, que se repetem ao longo da triste História do país.
Saruê, admirado e atento, pôde bem
distinguir quando um daqueles senhores enveredou por um discurso moralista que,
para o inveterado ébrio, não passava de conversa fiada para boi dormir, não
para ele, que não era boi, já dormira o suficiente e estava bem acordado.
Súbito, ouviu alguém dissertar sobre a
vocação dos homens públicos para a secular prática de, por expedientes escusos,
subtrair os recursos do erário, provindos do trabalho e, via de conseqüência,
do pagamento pelo povo de escorchantes tributos. Até ali, Saruê ainda não
discernira que o verbo “subtrair” não passava de jogo eufemístico para encobrir
significados mais profundos entranhados no ventre da palavra. De repente, o orador,
como num ato falho, recheou seu discurso com a palavra certa, a “palavramundo”
a que se refere Drummond e para cuja leitura o educador Paulo Freira adverte.
Dizia aquele orador “que todo político era ladrão!!!”.
Saruê, acordou totalmente de seu
transe e, com voz engrolada, ergueu a cabeça e, filosoficamente, aduziu:
Doutor, doutor, “tá cuipando a si
propi!!!”
Um silêncio repentino caiu no meio da
assembléia, e os olhos de lince e a alma sagaz do velho bêbado se fecharam
indiferentes às tricas e futricas daquele sinistro parlatório.
Bons tempos aqueles.
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