NAQUELE
TEMPO (23)
Hugo Martins
O circo sempre encantou as populações interioranas.
Sobretudo os mais modestos, que, às duras penas, sobreviviam, no seu nomadismo
sacrificado, graças ao elenco criativo de seus artistas mambembes, formado por
toda sorte de corajosos saltimbancos. Não havia luxo ou ostentação. Valiam a
criatividade e a coragem de surpreender pelo inesperado e pelo insólito. A
programação se reduzia à apresentação de peças teatrais de cunho
sentimentalóide, alguns números no trapézio ou na corda bamba, sempre
entremeados pela presença de palhaços de roupa e cara engraçadas, que só
arrancavam as risadas do público por meio de ações que lembravam o cinema
pastelão ou pela anedota picante, que cheirava à obscenidade moderada.
Muitas vezes, anunciavam-se atrações, estampadas em letras
grandes em frente à empanada do circo. A redação era ambígua. Numa delas,
lia-se: VENHA ASSISTIR AO GRANDE NÚMERO: HOMEM ATIRA UM TIJOLO DO ALTO DO
TRAPÉZIO E O OUTRO SEGURA NO DENTE. O
público, seduzido pelo inusitado ou movido pela sádica esperança de ver o
destroço que podia resultar da façanha, comparecia em grande escala. Na última
apresentação do dia, surgia, no picadeiro, um sujeito de cartola que, num
megafone, narrava a peripécia. Enquanto rufavam os tambores, dois homens de
dirigiam ao centro da arena. Um subia numa escada de corda enquanto o outro
permanecia embaixo, de olhar erguido para o companheiro que, do trapézio,
soltaria o tijolo. De repente, os tambores apressavam o toque a fim de criar um
clima de suspense. Subitamente, o homem do alto soltava o pesado tijolo, que se
espatifava no chão, e o que ficara no chão, segurava, com o polegar e o
indicador, o dente incisivo (!). A platéia, entre bestificada e atônita, ao
compreender a palhaçada urrava ou ria e tudo terminava a contento. Naquele
tempo, parecia existir mais complacência. Afinal, o número fora fiel ao
anúncio...
Um dia, porém, um dos tais circos, recorreu ao mesmo
expediente e anunciou, para o gáudio de curiosos e crédulos: NÃO PERCAM! HOJE:
A MULHER QUE VIRA PEIXE. Arquibancadas e cadeiras ficaram abarrotadas para
assistir à proeza. Os tambores aumentaram o clima de tensão quando uma mulher
de porte alto, cabelos louros e longos, ingressou no centro do picadeiro. As
luzes se apagaram. A expectativa silenciosa da assistência se exacerbava. De
repente, aquela figura misteriosa, enfocada pela luz mortiça de um refletor,
ergueu uma das mãos em que se via uma grande caçarola. Ela jogava para cima, em
impulsos sucessivos, a caçarola, de onde saltava um pequeno peixe. Dessa forma,
a mulher realmente virava, de um lado para o outro, o peixe. O número também
era fiel ao anúncio, mas o circo só não foi depredado graças á intervenção da
força pública local...
O mais hilário ocorreu no dia em que um certo circo
anunciou a presença do radialista cearense João Inácio Júnior. Eis a redação:
NÃO PERCAM! HOJE NOSSO CIRCO RECEBE JOÃO INÁCIO JÚNIOR. Muita gente acorreu ao
circo, sobretudo os amantes de rádio e as empregadas de cozinha, que nada
trocavam pela oportunidade ímpar de ver seu ídolo. Como o número demorasse a
ocorrer, estrugiram da platéia, em coro, gritos de toda sorte, exigindo a
presença do radialista. As cortinas se abrem, surge um homem vestido de calças
e casaca de azul acetinado e tendo a cabeça encimada por uma cartola
desgastada. O homem anunciou: senhoras e senhores, é com alegria que este circo
apresenta... Saíram de trás da empanada três anões, para quem o apresentador apontava,
um a um, com a mão espalmada e bradava: o JOÃO, o INÁCIO e o JÚNIOR... Embora
existisse fidelidade entre o anunciado e o apresentado, o desconsolo não
conteve a ira da platéia feminina, que não titubeou em pular os limites do
picadeiro para açoitar apresentador e anões...
Não tão bons aqueles tempos, em que os jogos de linguagem
embaíam a boa-fé dos homens...
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