segunda-feira, 23 de abril de 2012


NAQUELE TEMPO (23)

                                                                       Hugo Martins



          O circo sempre encantou as populações interioranas. Sobretudo os mais modestos, que, às duras penas, sobreviviam, no seu nomadismo sacrificado, graças ao elenco criativo de seus artistas mambembes, formado por toda sorte de corajosos saltimbancos. Não havia luxo ou ostentação. Valiam a criatividade e a coragem de surpreender pelo inesperado e pelo insólito. A programação se reduzia à apresentação de peças teatrais de cunho sentimentalóide, alguns números no trapézio ou na corda bamba, sempre entremeados pela presença de palhaços de roupa e cara engraçadas, que só arrancavam as risadas do público por meio de ações que lembravam o cinema pastelão ou pela anedota picante, que cheirava à obscenidade moderada.

          Muitas vezes, anunciavam-se atrações, estampadas em letras grandes em frente à empanada do circo. A redação era ambígua. Numa delas, lia-se: VENHA ASSISTIR AO GRANDE NÚMERO: HOMEM ATIRA UM TIJOLO DO ALTO DO TRAPÉZIO E O OUTRO  SEGURA NO DENTE. O público, seduzido pelo inusitado ou movido pela sádica esperança de ver o destroço que podia resultar da façanha, comparecia em grande escala. Na última apresentação do dia, surgia, no picadeiro, um sujeito de cartola que, num megafone, narrava a peripécia. Enquanto rufavam os tambores, dois homens de dirigiam ao centro da arena. Um subia numa escada de corda enquanto o outro permanecia embaixo, de olhar erguido para o companheiro que, do trapézio, soltaria o tijolo. De repente, os tambores apressavam o toque a fim de criar um clima de suspense. Subitamente, o homem do alto soltava o pesado tijolo, que se espatifava no chão, e o que ficara no chão, segurava, com o polegar e o indicador, o dente incisivo (!). A platéia, entre bestificada e atônita, ao compreender a palhaçada urrava ou ria e tudo terminava a contento. Naquele tempo, parecia existir mais complacência. Afinal, o número fora fiel ao anúncio...

          Um dia, porém, um dos tais circos, recorreu ao mesmo expediente e anunciou, para o gáudio de curiosos e crédulos: NÃO PERCAM! HOJE: A MULHER QUE VIRA PEIXE. Arquibancadas e cadeiras ficaram abarrotadas para assistir à proeza. Os tambores aumentaram o clima de tensão quando uma mulher de porte alto, cabelos louros e longos, ingressou no centro do picadeiro. As luzes se apagaram. A expectativa silenciosa da assistência se exacerbava. De repente, aquela figura misteriosa, enfocada pela luz mortiça de um refletor, ergueu uma das mãos em que se via uma grande caçarola. Ela jogava para cima, em impulsos sucessivos, a caçarola, de onde saltava um pequeno peixe. Dessa forma, a mulher realmente virava, de um lado para o outro, o peixe. O número também era fiel ao anúncio, mas o circo só não foi depredado graças á intervenção da força pública local...

          O mais hilário ocorreu no dia em que um certo circo anunciou a presença do radialista cearense João Inácio Júnior. Eis a redação: NÃO PERCAM! HOJE NOSSO CIRCO RECEBE JOÃO INÁCIO JÚNIOR. Muita gente acorreu ao circo, sobretudo os amantes de rádio e as empregadas de cozinha, que nada trocavam pela oportunidade ímpar de ver seu ídolo. Como o número demorasse a ocorrer, estrugiram da platéia, em coro, gritos de toda sorte, exigindo a presença do radialista. As cortinas se abrem, surge um homem vestido de calças e casaca de azul acetinado e tendo a cabeça encimada por uma cartola desgastada. O homem anunciou: senhoras e senhores, é com alegria que este circo apresenta... Saíram de trás da empanada três anões, para quem o apresentador apontava, um a um, com a mão espalmada e bradava: o JOÃO, o INÁCIO e o JÚNIOR... Embora existisse fidelidade entre o anunciado e o apresentado, o desconsolo não conteve a ira da platéia feminina, que não titubeou em pular os limites do picadeiro para açoitar apresentador e anões...

          Não tão bons aqueles tempos, em que os jogos de linguagem embaíam a boa-fé dos homens...

         

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