NAQUELE
TEMPO (13)
Hugo Martins
Nas festas de cunho religioso, por meio das quais a igreja
católica enchia suas burras, havia missas, trezenas e novenas. Nesses dias, a
cidade ficava festiva. Ouviam-se fogos de artifício, que, candentes,
arabescavam, o céu marchetado de estrelas. No patamar da igreja, a bandinha
executava dobrados. Em torno da matriz, barracas vendiam bolo de milho, grude e
café. Em outras tendinhas, caboclos bebericavam a boa cachacinha, enquanto
moçoilas, todas cheias de graça e faceirice, ofereciam à venda um lacinho
espetado num alfinete, que o comprador tratava de colocar na lapela. Eram de
cor vermelha ou azul. Quem os portasse teria optado por esse ou aquele partido.
Eram as quermesses, que traziam à cidadezinha a roda-gigante, o espalha brasa,
o carrossel e barcos de madeira, que subiam e desciam aos impulsos de cordas,
puxadas em ritmo cadenciado por braços vigorosos de moços, sentados, cada um,
na extremidade do brinquedo. Vez por outro, ouvia-se um disparo de espingarda:
eram os meninos tentando acertar patinhos de metal, que, ao fundo da tendinha,
desfilavam, desafiando a pontaria de cada participante. Derrubado certo número
de patos, o felizardo ganhava um prêmio. Mais adiante, homens tentavam laçar,
com uma argola de madeira, carteiras de cigarros, dispostas no chão, que eram
arrumadas no centro de um quadrilátero formado por cordas.
Do gramofone, irradivam-se músicas de todo jaez, que alguém
oferecia a outro alguém, cuja identificação se dava pelas iniciais do prenome
ou do apelido. Certa feita, ouviu-se a voz cavernosa do locutor: “atenção,
atenção, OX, ouça essa página musical a você oferecida por alguém que muito lhe
quer bem.” Tratava-se de um tal Ontônio
Xofer... Enquanto o boca de ferro dava prosseguimento à programação musical, as
pessoas iam se ajuntando na pracinha. Ia começar o leilão. Um sujeito,
empoleirado numa mesa, segurava a prenda e anunciava o lanço. Alguém gritava:
cinco mil réis. E os lances se iam sucedendo, até que o leiloeiro encerrava com
um “dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três”. A dádiva era entregue àquele cujo
lance fosse maior.
De regra, o objeto leiloado era ofertado por algum figurão
da cidade ou algum fiel. Se o primeiro procurava “se amostrar”, como dizia o
vulgo, o último, temeroso de não alcançar o reino dos céus, pagava suas
indulgências com galinhas, carneiros e porcos. Todos queriam “aparecer” para o
gáudio do vigário, que, satisfeito, amealhava dinheiro e assegurava às boas almas
as graças do Senhor...
Naquele tempo, embora o reverendo tivesse expressiva
ascendência sobre a comunidade, alguns meninos se arriscavam a fazer
traquinagem durante o leilão, postando-se por trás dos adultos e fazendo lances
inconcebíveis.
Certo dia, durante o leilão, alguém, arrematou um frango.
Quando o leiloeiro ia encerrar, fazendo a contagem a fim de entregar a prenda
ao proponente, que a arrematara por vinte contos de réis, ouviu-se um grito:
Cem contos de réis!!!. Todos ficaram surpresos com tal proposta. Só o padre não
se entusiasmara. Estava por trás do moleque. Pegou-lhe uma das orelhas,
torceu-a e ajuntou:
- Duzentos contos de réis, cabra safado!!! Você é filho de
Fulano, mas aqui você não tira leite com escuma!!! Amanhã vou falar com seu pai
e certamente você levará uma boa sova para aprender a respeitar as coisas de
Deus...
A bandinha executava os últimos dobrados, a lua se escondia
por trás da serra e, pouco a pouco, a praça se esvaziava. As lâmpadas de luz
mortiça se apagavam, e o silêncio era quebrado pelos cantos chorosos de
seresteiros, acompanhados pelas cordas dolentes de violões boêmios...
Bons tempos aqueles!!!
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