NÓS E NÓS Hugo Martins Eis que numa conversa informal, alguém comenta: político tal fez isto e aquilo. Da afirmação infere-se que, se alguma coisa foi feita por alguém, cujo mister é construir obras públicas e que tais, daí também se conclui que , se o fez, fê-lo por obrigação de ofício, por ditame de consciência. Ora, se quem lida com política dar a entender que fez mais do que devia ou fez melhor, também não deve ser mitificado por isso. Nada demais, apenas cumprimento do dever. O raciocínio é simples: um médico não é bom médico porque cumpre a missão de preservar a vida ou afugentar a dor. Também um médico, cuja competência fica comprovada por exercer sua obra com máxima dedicação e desmedido amor, também nada faz demais: cumpre o dever para o qual foi incumbido. Da mesma forma, um professor que vai além das expectativas, ensinando, orientando, exemplificando, indicando bibliografia, tirando dúvidas, espedaçando-se, com entusiasmo, em máximos esforços, pode se diferenciar do mero “dador” de aulas, mas, também, cumpre, simplesmente, seu dever. Por isso, não basta ao político profissional embriagar-se de tola vaidade, vomitando promessas e dádivas. É sua obrigação alcançar as metas colimadas. Além disso, está sendo regiamente pago com os tributos que a comunidade, coercitivamente, paga, afora outras “remunerações” que engordam sua bolsa e o fazem mais rico, findo o mandato. Não basta construir escolas sem que haja a preocupação de dotar o professor de sólido preparo, alcançado com a justa remuneração que o profissional deve auferir. De nada adianta construir hospitais se os profissionais da saúde não encontram condições mínimas de exercer seu trabalho. Ao fim e ao cabo, tudo correria, como se diz por aí, às mil maravilhas, se todos, consciente ou inconscientemente, todos que trabalham em prol de todos, adotassem o imperativo categórico do pensador alemão Immanuel Kant, infratranscrito com um par de aspas: “Aja, em qualquer circunstância, como se de sua atitude, fosse ser deduzida uma regra geral para o comportamento de todos os homens.” O alcance do imperativo vai depender da sinceridade, da consciência que cada homem deve trazer na alma de que amor não é mera palavra que se joga frivolamente ao vento em extravagâncias afetivas e discursos caramelados. Vai além, tem em vista o outro, a quem devemos dar o melhor de nós mesmos. Muitos votos despejados nas urnas derivam de manifestações egoísticas, prenhes de individualismo baboso: promessa de emprego, manutenção de cargos, presentinhos e outras patifarias. Quando não resultam de sofismas e mentiras bem cosidas, apanhadas, aqui e ali, da fala de um cara-de-pau verboso, destituído de qualquer consciência dos axiomas da ciência política na sua acepção grega: cuidar da pólis. Cumpra ou não as promessas; use de malabarismo para embair a boa-fé de tantos, ensaie sorrisos cretinos, cerre os punho, cruze os braços e se diga diferente, continue apoiando-se na autoridade duvidosa de gurus políticos e mistificadores, ao fim, aquele artista mal ensaiado levará ao povo que o elegeu a decepção, o engodo e a frustração. Parece coisa de último capítulo de novela global: todos aguardam um epílogo que satisfaça suas expectativas mais recônditas e, baixado o pano, vem o desatino e a sensação do nada, do inexistente, do impalpável... E a vida continua, não importa em que palco.
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domingo, 20 de outubro de 2019
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