segunda-feira, 14 de julho de 2014

ESTOU FORA...
Hugo Martins

Algum motivo para alguém se ufanar, abrir a gorja e bradar: “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor?” Aqui se pagam tributos além da conta, os quais não são devidamente alocados, isto é, não voltam em forma de serviços. Pois é: embora a Constituição em vigor programe saúde, educação e outros direitos para todos, isso soa como palavras vãs, coisa de primeiro mundo. O pior é que o sujeito paga previdência, mas tem de contratar plano de saúde. Este, em muitas situações, só funciona se acionado pelo poder judiciário. O sujeito paga pensão alimentícia para filhos de que dela necessitam. Se, porém, o filho chegar aos 21 anos de idade, o alimentante não pode pedir abatimento na declaração do imposto de renda, pois há uma presunção de que em tal idade, o alimentando já alcançou emancipação econômica. É cômico, não? O sujeito paga mensalidade escolar, mas só abate dada fração na declaração do imposto de renda... Que desproporção, não? Onde anda o tal princípio d isonomia. É triste, não?
Algum motivo outro para alguém abrir a bocarra e gritar: “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”? Aqui, um ministro da maior corte judicial do País se obriga a se afastar das funções porque está a cumprir sua obrigação. Suas decisões estão sendo revistas... Há a desconfiança de que aquele senhor teria se excedido no exercício da judicatura. Não haveria algo de podre no reino de Brasília? Aqui, o princípio da isonomia só existe para uns poucos tal como ocorre na prosa dilacerantemente irônica de George Orwell na obrinha cortante A Revolução dos Bichos. Aqui somos campeões do mundo em corrupção, ladroagem, engodo, mentiras e falta de vergonha. O pior: tudo partido de partidos políticos. Aqui, se compram voto; aqui, partidos políticos parecem mais associações criminosas, formadas por quadrilheiros versados na arte de pilhar o erário; aqui, todos hibernam sob a influência narcótica de um certame esportivo, enquanto os homens bem falantes vão aumentando seu patrimônio à custa da ingenuidade de todos.
Algum motivo sério para alguém, orgulhosamente, deixar ecoar o brado: “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”? Aqui, se cometem crimes de toda sorte, a população fica entregue à sanha de homicidas, assaltantes, estupradores e outros criminosos mais sofisticados, que não agem senão no ambiente de seus gabinetes refrigerados. Ninguém teme a presença da polícia, tampouco da ação do poder judiciário. Não funcionam mesmo. Argumento disseminado entre a população.
Aqui, as crianças das escolas públicas, imagens que a publicidade oficial não mostra, estudam no chão ou em carteiras carcomidas pela ação do tempo. A merenda escolar que a meninada espera ter todos os dias é desviada para projetos outros nada nobres, como , por exemplo, alindar casas de praias de alguns ladrões de alto coturno. Aqui, exercitar a honestidade é ser levado aos meios de comunicação de massa onde o “honesto” é levado a um picadeiro televisivo para mostrar que aqui não há só pessoas desonestas. Devolver a bolsa perdida por alguém é sinônimo de virtude... Ora, ora, ora...
Afora essas coisinhas, todos estão compenetrados e programados para gritar “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. É bonito, é lírico, é prova insofismável de que todos são patriotas e amam seu País. Amor tristemente tragicômico, digno de figurar em qualquer obra teatral concebida
pelos antigos gregos.
Todos juntos, vamos! Pra frente, Brasil! Salve a Seleção! A ressaca histórica não tarda.

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