Muito do que ocorre com todos os homens parece coisa do acaso. Para os fatalistas, a coisa é obra do destino, tudo já estaria programado. De um jeito ou de do outro, meninos, os jogadores Neymar e Thiago Silva devem estar dando graças aos céus por não terem participado daquela humilhação imposta pelo time alemão ao desenxabido timeco brasileiro. Mesmo que ambos estivessem participando, a tragédia seria a mesma. A propósito, antes do jogo, ouvi muitos comentários de que a ausência, sobretudo de Neymar, seria preenchida, tal como ocorreu em 1962, no Chile, quando Pelé foi posto para fora por força da pancadaria, e entrou Amarildo. Realmente, Amarildo fez seu papel e foi logo marcando gois na primeira partida de que participou, se não me engano, contra a Espanha de Puskas e Gento... Só que os comentadores não fizeram a análise friamente. Recorreram à paixão e deixaram de lado a Razão. Naquela seleção havia Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo, todos do Botafogo tal qual Amarildo, Além do restante do elenco: Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zito, Zózimo e Vavá. E nesta, que sofreu a estridente goleada, quem foi mesmo quem entrou no lugar de Neymar. E os demais, quem eram?
Àquela época, 1962, todos os jogadores jogavam aqui, no solo brasileiro. Não havia o glamour imposto pela imprensa. Jogador de futebol era jogador de futebol. Àquela época, depois da conquista do bicampeonato, Pelé continuou indo para os treinos na Vila Belmiro dirigindo seu próprio carro, e Garrincha, indo para a cidade de Pau Grande, bater pelada, caçar passarinhos e beber uns birinaites com os amigos. Não precisavam de escolta... Hoje o que se vê? É jogador de futebol endeusado, celebrizado, ditando modas... Quem não jogar fora do Brasil corre sério risco de não ser convocado. Naquele tempo, quando Evaristo de Macedo foi jogar no Real Madrid, temia não ser convocado... Canhoteiro, não o vi jogando, mas li sobre a figura, deveria ter sido o primeiro ponta-esquerda da seleção de 1958. Implorou para não ser convocado. Razões? Não se sabe. Para não ser injusto, devemos lembrar que Fred joga no Fluminense do Rio de Janeiro... No Fluminense. E na Seleção? Bom, aí é outra história...
Aqui em terras brasileiras, podem se montar mais de dez seleções de futebol para disputar o mundial. Interesses escusos, porém, impõem que só “estrangeiros” devem ser convocados. Direi como o velho Brizola quando a ele disseram que Delfim Neto aplaudia o Plano Cruzado de Funaro e Sarney, pronunciando o “l” de algo, de modo alveolar, isto é, encostando a ponta da língua nos alvéolos: “se Delfim aplaude, algo existe.
Mas o bom mesmo de tudo era você olhar na tela a cara de Cagão Bueno, Ronalducho, Casagrande e Arnaldo César Coelho à medida que os alemães marcavam mais um gol. Era como se não tivessem nada a dizer. E não tinham mesmo, embora se esforçassem...
Por fim, lembrando Noel, que dizia: “ninguém aprende samba no colégio”, parafraseando o poeta da Vila, aduzimos: futebol não se aprende no estrangeiro, mas nos campos de várzeas como o fizeram Pelé, Garrincha, Ademir da Guia, Dida, Didi e tantos outros que sempre colocaram o nome do futebol brasileiro nos altiplanos da arte, do malabarismo, da gratuidade de jogar com a alegria que desperta na alma o jogar futebol. Quem foi moleque de rua bem sabe disso.
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