Impressões de leitura
Hugo Martins
Findei a leitura de uma obra
deliciosa: A Cura de Schopenhauer. Embora o entrecho do livro cheire a
burguesismo filisteu, flagram-se, aqui e ali, alusões ao filósofo alemão,
incompreendido no seu tempo, mas eterno para as gerações que se sucederam.
Com efeito, Arthur Schopenhauer,
influenciou diversas categorias de pensadores e literatos. Entre os primeiros,
o austríaco Sigmund Freud, o dinamarquês Soren Kierkegard e o alemão Nietzsche;
entre os últimos, aqui no Brasil, Machado de Assis (Memórias Póstuma de Brás
Cubas) e Augusto dos Anjos ( Eu e outras poesias).
Além do pensamento navalhante do
filósofo, lemos, na obra aludida, historietas que bem demonstram a irritação do
pensador com a estupidez humana.
Certa feita, uma senhora
dirigiu-se a ele, vomitando toda sorte de impropérios contra a instituição do
casamento. Depois de “soltar os cachorros”, acrescentou: “entendeu?” Ao que o
pensador acrescentou; “não, mas passei a entender muito bem seu marido”. Outra
vez, um sujeitinho fez uma pergunta ao filósofo. Como este dissesse que não
conhecia o assunto, o néscio ficou indignado, dizendo: “não aceito um filósofo
do seu porte desconhecer tal assunto?” Schopenhauer olhou-o e disse: “Meu caro,
a sabedoria tem limites. O que não tem nenhum limite é a ignorância”. Conta-se
também que toda vez que ia fazer refeições numa casa de pasto, antes de
sentar-se, retirava uma moeda de ouro do bolso, punha-a sobre a mesa. Ao fim da
refeição, levantava-se, repunha a moeda na algibeira e se ia. Um dia, um
curioso abordou o filósofo e perguntou-lhe por que sempre fazia aquilo.
Schopenhauer respondeu: “No dia em que eu aqui entrar, e algum homem não
estiver conversando sobre mulheres e cavalos (futebol, hoje), ganhará essa
moeda.”
Sua decepção com o gênero humano
se traduzia pelo afeto que ele dedicava a seu cachorro Atma. A este dava o
nobre título de Sir. No entanto, se o
animal demonstrasse algum comportamento que o irritasse, dizia: “Fica quieto,
Humano”!
Embora a obra referida no
primeiro parágrafo não aprofunde o pensamento do filósofo (é esperável num best
seller), o leitor deve procurar se
inteirar de obras famosas daquele pensador,
que dão bem a medida da visão trágica da existência. Dentre elas, O
Mundo como Vontade e como Representação e Parerga e Paralipomena. Se, porém,
não desejar encarar o pensamento do filósofo por tais obras, afunde-se num sofá
e assista às novelas globais. Ou, se preferir, sente-se numa cadeira à frente
do computador, ligue-se ao Facebook e pesque dos sites de terceiros as frases
carameladas e ocas dos paulo coelho, augusto cury à frente, e outros idiotas da
mesma cepa.
Nestas, temos a venda do otimismo
barato que encanta as almas ingênuas. Na filosofia, o realismo contundente das
coisas da vida, da tragicidade da existência e “outras questões prenhes de
outras questões”... Amor, morte, o tempo que passa, os engodos de determinados
discursos certinhos e direcionados pela influência maligna das ideologias, e
tudo o mais que o tempo destrói: a fama, a beleza, a vaidade, a ânsia pelo
poder e pela riqueza, a juventude e outra questões aterradoras... O menu é
suficiente para despertar reflexões e banir o indiferentismo intelectual acerca
dos variegados sentidos da vida.
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