O
OUTRO JOGO
Hugo
Martins
O primeiro jogo teve
início no dia 12 do mês de junho e findou no dia 13 de julho. O povo brasileiro
foi duramente sacrificado, pois o poder público, juntamente com a entidade-mor
do esporte bretão, foi fundo na bolsa de cada torcedor, que não percebia, nem
fazia esforço para tanto. Quase todos hibernavam, narcotizados pela magia do
futebol, cada vez mais eficiente, sobremaneira pela força persuasiva dos meios
de comunicação de massa, cuja alquimia fabrica mitos e heroifica mortais de
bisonhas cabeleiras e estranhas tatuagens. O pior de tudo é que, em meio à
aquela alegria, o país praticamente parou. Criaram-se feriados sem previsão
legal. A indústria diminuiu sua produção;
o comércio amargou prejuízos, e as escolas tiveram, impunemente, suas portas
cerradas. Hoje é um novo dia, os turistas bateram asas; as arenas (antes, eram
estádios), estão curtindo seu silêncio; e o povo acordou e voltou para a vida.
O segundo jogo terá
início no dia 5 de outubro do ano corrente. Enquanto os concorrentes se digladiam
na ânsia infrene de abiscoitar uma fatia do poder, os brasileiros serão os
árbitros. Nesse jogo de busca de poder, participam “atletas” de variadas facetas.
Alguns virão de agremiações que mais parecem sociedades criminosas; outros
procederão de processos judiciais em que figuram na condição de réus, em
virtude de colocarem em prática a secular arte de furtar, de mentir e de não
medir esforços para engordar a bolsa à custa dos tributos pagos por todos. Por
fim, advirão aqueles que, por vocação para a malandragem, se funcionários públicos, candidatam-se a fim de gozar alguns
meses de férias, que eles chamam afastamento legal de função ou cargo. Ao fim e
ao cabo, os árbitros desse embate devem levar no bolso SEU CARTÃO VERMELHO e
utilizá-lo com seriedade e eficácia. Primeiro, não recorrendo à mesma condescendência
daqueles da FIFA. Antes, utilizá-lo com o fim maior de evitar lesões e feridas,
que só a História explica. A recorrência ao CARTÃO VERMELHO tira do jogo os
patifes, os ladrões, os pilantras e toda a corja que joga contra os torcedores,
desrespeitando-os e traindo-lhes a confiança. Jamais pense em usar o cartão
vermelho como cartão verde. Esse equívoco permite que aquela cambada de
desleais volte ao jogo e a partida tenha a mesma cara da anterior. Só o CARTÂO
VERMELHO, aplicado com seriedade e sem complacência, pode levar todos à conquista do título: a dignidade de todos,
sem exceção.
O primeiro jogo não tem
a mesma importância que o segundo. Para perceber a diferença basta refletir.
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