CONSULTE
ADVOGADO
Hugo Martins
Sobre ser vernaculista
de nomeada, orador de largos predicados e político atilado, o baiano Ruy
Barbosa também se destacou na arte de advogar. Criticou duramente a redação do
Código Civil de 1916, do que resultou uma polêmica com o filólogo e gramático
baiano Ernesto Carneiro Ribeiro, de cujos embates surgiram miríades de páginas,
de um lado e de outro, redigidas de mais fino lavor linguístico e literário.
Orador exuberante, além de exímio redator de cartas, discursos e conferências,
ficou conhecido no Brasil pela famosa Oração aos Moços, de que encontramos, vez
por outra, trechos transcritos em redes sociais e em salas de escritórios.
Candidatou-se duas vezes à presidência da República e participou ativamente das
contendas diplomáticas do Brasil com outros países, questões em que se
discutiam problemas atinentes ao nosso território. Aqui, colocou ele seus
conhecimentos de direito internacional público a serviço dos brasileiros,
auxiliando, nos trabalhos, o Barão do Rio Branco.
Ruy Barbosa mantinha
seu escritório advocatício em sua própria casa. Conta-se, a título de
ilustração, para fazer ver a habilidade do baiano com a coisa jurídica, que,
certa feita, um vizinho entrou-lhe no escritório, a fim de fazer-lhe uma consulta.
Formou o tal vizinho uma arapuca. Disse ao causídico o vizinho que um
determinado cachorro entrara em sua casa e, alçando-se na mesa onde se
encontravam cinco quilos de carne, babujou esta, comeu-lhe uma parte, acabando
por inutilizá-la inteiramente. Depois da narração, o bom vizinho perguntou a
Ruy se ele, vizinho, fazia jus a uma indenização a ser paga pelo dono do cão.
Houve um dano, logo deve ser ressarcido pelo dono do animal, disse-lhe o
paciente advogado. O vizinho aproveitou a deixa e disse: “Dr. Ruy, o cão
pertence ao senhor. Desse modo o senhor me deve (trazendo o valor monetário
para os dias de hoje) quarenta reais”.
Ruy aquiesceu, abriu a gaveta e de lá retirou duas notas de vinte reais. O
vizinho recebeu a quantia, agradeceu, saiu e, da porta, disse: muito obrigado,
doutor. Quando ia saindo, Ruy Barbosa o chamou e disse que a consulta prestada
iria custar ao bom vizinho apenas trezentos reais...
Lembrei-me do
“obrigado” da formiguinha da anedota, bem como da parêmia popular que diz:
“fulano” foi buscar lã e saiu tosquiado.
“Honorário não é
gorjeta”. Já li isso no vidro de carros, certamente de advogados...
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